Poesia e crença

By Delminda Silveira de Sousa

Cantar a Natureza, de Deus o Nome Santo

num trono só de amor erguer em doce canto,

quanto é consolador à alma do poeta,

— alma singela e pura e triste qual violeta,

— flor deste val’ sombrio a que chamamos — mundo,

pedindo sempre ao Céu do sol claro e fecundo

da dúlcida esperança um raio protetor,

pedindo da ventura o bafejar de amor,

e d’alegria doce o rocio benfazejo

que a faça reviver à luz de um casto beijo,

e sempre, sempre vendo o aroma derramado

perder-se todo além sem ter ao Céu chegado!...

Cantar a Natureza... ah! quanto é belo e grato

da inocência e do amor viver no doce trato!...

Aves; flores; o Céu coberto d’ouro e rosas,

ou todo, todo azul, em nuvens graciosas,

véus das virgens de Deus, — aqui e ali velado;

ou, como de Maria o manto constelado,

vê-lo, e depois, do luar no pálido clarão,

deixando o olhar vagar na rútila amplidão,

sonhar — numa existência encantadora e calma,

viver, adormecendo as fundas mágoas d’alma

nesse mundo ideal, sublime da Poesia,

crendo pelo amor à luz da fantasia...

Oh! quanto é grato e doce à alma do poeta,

— alma singela e pura, e triste, qual violeta!

Olhar o mar azul por sob as rendas finas

da espuma que rebenta em cândidas boninas,

ou vê-lo da tormenta ao sopro aterrador

tomar d’escuro crepe o fúnebre negror;

ouvi-lo, nas manhãs serenas, purpuradas,

na orla d’alva praia, em ondas namoradas,

de amores juvenis idílios murmurar,

ou triste, ao pôr do sol, queixoso a suspirar

as nênias da saudade; Oh! quanto é grato ao poeta,

— alma singela e pura e triste qual violeta!

Montanhas que vestis a virginal roupagem

da mata secular que nem a atroz passagem

do vendaval destrói, nem o raio maltrata,

vós que as fitas cingis dos veios cor de prata

que descem a entoar louvores ao Senhor,

também vós o sabeis, quanto é consolador

ao coração que sofre, ao coração do poeta,

— alma singela e pura e triste qual Violeta —,

cantar a Natureza, de Deus o Santo Nome

erguer num pedestal que o tempo não consome!

Cantar a Natureza, de Deus o Nome Santo

cantar... é ter esperança, embora corra o pranto!

Porque não morre a fé, não morre a crença pura

d’alma que adora Deus, no templo da natura!