POETA NUNCA O SEREI

By José Joaquim Correia de Almeida

Poeta insosso quero fazer versos,

sublimes epopeias, obras primas;

já tenho, sem contar livros diversos,

um dicionário prático de rimas.

ostentando fatal força titânica,

acumulo os vocábulos em ânica,

e assim começo esdrúxulo rimar:

botânica,

britânica,

germânica,

hispânica,

orgânica,

satânica;

mas o conceito nunca posso achar.

Não vou bem! Passo a ser epistológrafo,

procuro consoante só em ógrafo,

e assim começo esdrúxulo rimar:

autógrafo,

biógrafo,

cartógrafo,

co smá grafo,

geógrafo,

cenógrafo;

mas o conceito nunca posso achar.

Não desisto de empresa tão poética,

vou apanhando os términos em ética,

e assim começo esdrúxulo rimar:

artética,

ascética,

caquética,

eclética,

emética,

frenética;

mas o conceito nunca posso achar.

Posto que já me sinta assaz colérico,

ainda escolho epítetos em érico,

e assim começo esdrúxulo rimar:

quimérico,

esférico,

genérico,

hespérico,

homérico,

ibérico;

mas o conceito nunca posso achar.