POETA NUNCA O SEREI
Poeta insosso quero fazer versos,
sublimes epopeias, obras primas;
já tenho, sem contar livros diversos,
um dicionário prático de rimas.
ostentando fatal força titânica,
acumulo os vocábulos em ânica,
e assim começo esdrúxulo rimar:
botânica,
britânica,
germânica,
hispânica,
orgânica,
satânica;
mas o conceito nunca posso achar.
Não vou bem! Passo a ser epistológrafo,
procuro consoante só em ógrafo,
e assim começo esdrúxulo rimar:
autógrafo,
biógrafo,
cartógrafo,
co smá grafo,
geógrafo,
cenógrafo;
mas o conceito nunca posso achar.
Não desisto de empresa tão poética,
vou apanhando os términos em ética,
e assim começo esdrúxulo rimar:
artética,
ascética,
caquética,
eclética,
emética,
frenética;
mas o conceito nunca posso achar.
Posto que já me sinta assaz colérico,
ainda escolho epítetos em érico,
e assim começo esdrúxulo rimar:
quimérico,
esférico,
genérico,
hespérico,
homérico,
ibérico;
mas o conceito nunca posso achar.