PONDERA MISTERIOSO EM AMORES O DESCUIDO, COM QUE HUMA DAMA CORTOU O SEU DEDINHO ...

By Gregório de Matos Guerra

Para escrever intentou

Nise uma pena aparar,

e começando a cortar,

o seu dedinho cortou:

incontinenti a largou

sentida desta ocasião,

e com tão justa razão

chorosa sente: porque

teve neste golpe pé,

para sentir-se da mão.

Duas penas descontente

padece Nise em verdade,

da ferida a crueldade,

e viver de Fábio ausente:

qual destas duas mais sente

difícil é de advertir;

mas eu venho a concluir,

que mais sente Nise amante

viver de Fábio distante,

do que chegar-se a ferir.

Quisera a Fábio escrever

por dar alívio a seu mal,

porém a sorte fatal

não lho consentiu fazer:

quis-lhe o gosto perverter,

dando-lhe o golpe, que a assusta,

por cuidar, que é cousa justa

mostrar, quando Nise chora,

que esse Fábio, a quem adora,

gotas de sangue lhe custa.

Bem claramente constou

de Nise na mão ferida,

que o ser liberdade, e vida

tudo a Fábio sujeitou:

discreta, e entendida andou

neste amoroso embaraço,

pois para apertar o laço

mais da sua sujeição,

que o firma nesta ocasião,

mostrou o sangue do braço.

Queixosa Nise em verdade

se mostrou nesta ocasião,

não da ferida da mão,

do golpe sim da saudade:

porque com tal crueldade

a move de Fábio a ausência,

que sem haver resistência

no peito, que amante o adora,

Lágrimas de sangue chora

com repetida veemência.

De propósito parece,

que se deu Nise este corte,

porque um amor, que é tão forte,

só bem assim se encarece:

e quem duvida, o fizesse

para dar-nos a entender,

que quis seu sangue verter

para mostrar sua fé,

que tanto ama a Fábio, que

quer dar-lhe o sangue a beber.