PONDERA MISTERIOSO EM AMORES O DESCUIDO, COM QUE HUMA DAMA CORTOU O SEU DEDINHO ...
Para escrever intentou
Nise uma pena aparar,
e começando a cortar,
o seu dedinho cortou:
incontinenti a largou
sentida desta ocasião,
e com tão justa razão
chorosa sente: porque
teve neste golpe pé,
para sentir-se da mão.
Duas penas descontente
padece Nise em verdade,
da ferida a crueldade,
e viver de Fábio ausente:
qual destas duas mais sente
difícil é de advertir;
mas eu venho a concluir,
que mais sente Nise amante
viver de Fábio distante,
do que chegar-se a ferir.
Quisera a Fábio escrever
por dar alívio a seu mal,
porém a sorte fatal
não lho consentiu fazer:
quis-lhe o gosto perverter,
dando-lhe o golpe, que a assusta,
por cuidar, que é cousa justa
mostrar, quando Nise chora,
que esse Fábio, a quem adora,
gotas de sangue lhe custa.
Bem claramente constou
de Nise na mão ferida,
que o ser liberdade, e vida
tudo a Fábio sujeitou:
discreta, e entendida andou
neste amoroso embaraço,
pois para apertar o laço
mais da sua sujeição,
que o firma nesta ocasião,
mostrou o sangue do braço.
Queixosa Nise em verdade
se mostrou nesta ocasião,
não da ferida da mão,
do golpe sim da saudade:
porque com tal crueldade
a move de Fábio a ausência,
que sem haver resistência
no peito, que amante o adora,
Lágrimas de sangue chora
com repetida veemência.
De propósito parece,
que se deu Nise este corte,
porque um amor, que é tão forte,
só bem assim se encarece:
e quem duvida, o fizesse
para dar-nos a entender,
que quis seu sangue verter
para mostrar sua fé,
que tanto ama a Fábio, que
quer dar-lhe o sangue a beber.