PONDERA NA CORRENTE ARREBATADA DE HUM CAUDALOSO RIO QUAM DISTINTO VEM A SER O CURSO DA HUMANA VIDA.

By Gregório de Matos Guerra

Vai-te, mas tornas a vir,

eu vou, e não torno mais,

nascemos mui desiguais,

hemo-nos de dividir:

em ti tudo é repetir,

vazas, e tornas a encher:

em mim tudo é fenecer,

tudo em mim é acabar,

tudo em mim é sepultar,

finalmente hei de morrer.

Vai-te refazer ao mar

do cabedal, que hás perdido

pela terra divertido,

e és ditoso em o cobrar:

eu não posso restaurar,

nem tampouco conseguir,

o que de mim fiz fugir,

tudo se tem acabado:

tu, em que vais apressado,

Vai-te, mas tornas a vir.

O cansaço, e amargura,

que te custa o teu correr,

tornas logo a converter

em leite, mel e doçura:

eu correndo à sepultura

cada vez me dano mais:

somos muito desiguais

em converter dissabores,

tu te voltas com favores.

Eu vou, e não torno mais.

Suposto que sem medida

roubando vás dessa sorte,

nem por isso passas morte,

que dure, ou seja sentida:

eu, enquanto dura a vida,

se cometo absurdos tais,

sem que me valham meus ais,

pago mui pelo miúdo,

o que a morte faz a tudo,

Nascemos mui desiguais.

Afogas mil passageiros,

mas tu a ti não te prendes,

antes mais forçoso emprendes

submegir montes, e oiteiros:

eu, se não são verdadeiros

meus passos para a Deus ir,

me encaminho a destruir:

tudo em mim é puro estrago,

diversamente naufrago,

Hemo-nos de dividir.

Inda que assim te despenhes,

não vejo não naufragar-te,

antes mais vejo espalhar-te

por campos, vales, e brenhas:

de mim pobre não há senhas,

em chegando a me fundir

não me hei de reproduzir,

antes para meu encanto

fico num contino pranto,

Em ti tudo é repetir.

Qualquer tronco, que por si

se vê murcho, ou molestado,

este mui regozijado

se arranca, e vai trás de ti:

eu, se culpas cometi,

tudo é chorar, e gemer,

ninguém me dá seu poder,

ando corrido, e feneço,

e tu, enquanto eu padeço,

Vazas, e tornas a encher.

És vandoleiro, e pirata

de ramos, flores, e frutos

teus procederes são brutos,

e a ti ninguém te maltrata:

eu, se falta em mim se trata,

e nela chego a morrer,

tudo em mim é padecer,

peno toda a eternidade,

tu tens outra liberdade,

Em mim tudo é fenecer.

Tens mui tiranos efeitos

no furor, com que devoras,

e todos todas as horas

te têm notáveis respeitos:

eu, aguardam-me sujeitos

para me mais estragar,

gusanos para me dar

o pago, que hei merecido,

tu vives obedecido,

Tudo em mim é acabar.

Vê, quanto tens destruído,

quanto tens desbaratado,

o que tens morto de gado,

de toda a sorte nascido:

mostra-te disso doído?

não: que não tens que penar,

em mim sim tudo é chorar,

tudo em mim é sentir danos,

tudo em mim são desenganos.

Tudo em mim é sepultar.

Enfim certamente és rio,

foste mar, mar hás de ser,

mas eu só devo de crer,

que fui, e serei pó frio:

assim creio, assim confio,

nele me hei de converter,

os bichos me hão de comer

hei de todo acabar,

hei de estreita conta dar,

Finalmente hei de morrer.