PONDERA NA CORRENTE ARREBATADA DE HUM CAUDALOSO RIO QUAM DISTINTO VEM A SER O CURSO DA HUMANA VIDA.
Vai-te, mas tornas a vir,
eu vou, e não torno mais,
nascemos mui desiguais,
hemo-nos de dividir:
em ti tudo é repetir,
vazas, e tornas a encher:
em mim tudo é fenecer,
tudo em mim é acabar,
tudo em mim é sepultar,
finalmente hei de morrer.
Vai-te refazer ao mar
do cabedal, que hás perdido
pela terra divertido,
e és ditoso em o cobrar:
eu não posso restaurar,
nem tampouco conseguir,
o que de mim fiz fugir,
tudo se tem acabado:
tu, em que vais apressado,
Vai-te, mas tornas a vir.
O cansaço, e amargura,
que te custa o teu correr,
tornas logo a converter
em leite, mel e doçura:
eu correndo à sepultura
cada vez me dano mais:
somos muito desiguais
em converter dissabores,
tu te voltas com favores.
Eu vou, e não torno mais.
Suposto que sem medida
roubando vás dessa sorte,
nem por isso passas morte,
que dure, ou seja sentida:
eu, enquanto dura a vida,
se cometo absurdos tais,
sem que me valham meus ais,
pago mui pelo miúdo,
o que a morte faz a tudo,
Nascemos mui desiguais.
Afogas mil passageiros,
mas tu a ti não te prendes,
antes mais forçoso emprendes
submegir montes, e oiteiros:
eu, se não são verdadeiros
meus passos para a Deus ir,
me encaminho a destruir:
tudo em mim é puro estrago,
diversamente naufrago,
Hemo-nos de dividir.
Inda que assim te despenhes,
não vejo não naufragar-te,
antes mais vejo espalhar-te
por campos, vales, e brenhas:
de mim pobre não há senhas,
em chegando a me fundir
não me hei de reproduzir,
antes para meu encanto
fico num contino pranto,
Em ti tudo é repetir.
Qualquer tronco, que por si
se vê murcho, ou molestado,
este mui regozijado
se arranca, e vai trás de ti:
eu, se culpas cometi,
tudo é chorar, e gemer,
ninguém me dá seu poder,
ando corrido, e feneço,
e tu, enquanto eu padeço,
Vazas, e tornas a encher.
És vandoleiro, e pirata
de ramos, flores, e frutos
teus procederes são brutos,
e a ti ninguém te maltrata:
eu, se falta em mim se trata,
e nela chego a morrer,
tudo em mim é padecer,
peno toda a eternidade,
tu tens outra liberdade,
Em mim tudo é fenecer.
Tens mui tiranos efeitos
no furor, com que devoras,
e todos todas as horas
te têm notáveis respeitos:
eu, aguardam-me sujeitos
para me mais estragar,
gusanos para me dar
o pago, que hei merecido,
tu vives obedecido,
Tudo em mim é acabar.
Vê, quanto tens destruído,
quanto tens desbaratado,
o que tens morto de gado,
de toda a sorte nascido:
mostra-te disso doído?
não: que não tens que penar,
em mim sim tudo é chorar,
tudo em mim é sentir danos,
tudo em mim são desenganos.
Tudo em mim é sepultar.
Enfim certamente és rio,
foste mar, mar hás de ser,
mas eu só devo de crer,
que fui, e serei pó frio:
assim creio, assim confio,
nele me hei de converter,
os bichos me hão de comer
hei de todo acabar,
hei de estreita conta dar,
Finalmente hei de morrer.