POR ESTE MESMO ESCRAVO ESCREVE TAMBEM O POETA A OUTRO AMIGO EM PERNAMERIM CHAMAD...

By Gregório de Matos Guerra

Senhor Inácio, é possível,

que quisestes desdizer

daquela boa opinião,

que eu tinha na vossa fé?

É possível, que um amigo,

de quem tanto confiei,

nem por escrito me fala,

nem em pessoa me vê?

É possível, que uma ausência

tanta potestade tem,

que ao vivo morto reputa,

no que toca ao bem-querer?

Se isto em vós a ausência faz,

como em meu peito o não fez,

não sois vós o meu ausente,

que em minha idéia viveis?

O certo é, meu amigo;

disse amigo: mas errei,

que não sois amigo já,

fostes meu sócio talvez.

Fostes sócio nos caminhos

daquela terra infiel,

onde Luzia traidora,

e Catona descortês

Me privaram dos sentidos,

e me deixaram cruéis

o corpo uma chaga viva

a golpes de seu desdém.

Mas eu me não queixo delas,

que de nenhuma mulher

má, ou boa há de queixar-se

homem, que juízo tem.

Queixo-me de vosso Tio,

que se foi por me empecer

esta terceira jornada

para acabar o entremez.

Praza a Deus, que ache Simoa,

a quem amante foi ver,

como há de achar Antonica

farta do Xesmeninês.

Daquela Antonica falo,

que pôs no negro poder

das Quitas, para que a guardem,

e a guardaram ao revés.

Que a Silvestre a entregaram,

o qual, como vós sabeis,

apesar dos dias santos

lhe deu tanto que fazer.

Mas pois em Pernamerim,

e em suas cousas toquei,

neste mesmo assunto quero,

me façais uma mercê.

Dizei — e, se está o Antônio

recolhido a seu vergel,

onde era geral Adão

das Evas, que Deus lhe deu.

E se acaso tiver vindo,

vos peço, que lhe mandeis

este romance fechado

em um molhado papel.

Porque no molhado veja

o choro, com que lancei

estes versinhos tão tristes

por amar, e querer bem.

A ele, que me fugiu

desta casa, há mais de um mês,

e à Catona, que o imita

no esquivo, e no infiel.

E com isto, e outro tanto,

que me fica por dizer,

adeus, até que tenhais,

quem vos traga a meu vergel.