POR ESTE MOLEQUE, QUE DEO AO POETA MUYTAS LEMBRANÇAS DA PARTE DE CATONA, LHE REM...

By Gregório de Matos Guerra

Mandais-me vossas lembranças,

eu as não hei de mister,

porque de vós sempre as tenho,

quer mas deis, quer não mas deis.

Se o fazer mal não se perde,

como é adágio português,

quem me faz tão grandes males,

como me pode esquecer?

Sinto, que vossas lembranças

me viessem esta vez

na desconfiança envoltas

lembrarei, não lembrarei.

Como não há de lembrar-me

um coração tão cruel,

se as feridas n’alma dadas

nem curadas saram bem?

A cada passo me lembram

os rigores, e os desdéns,

com que, ingrata, castigastes

a culpa de vos querer.

O certo é, que este temor

nasce de vossa má fé,

que quem se sangra em saúde

culpada deve de ser.

De vós mesma desconfiai,

que de mim não pode ser:

de vós sim, que me matastes,

de mim não, que vos amei.

Porque se aquela pessoa

na minha memória fez

entrada por mão de amor,

quem lhe havia de empecer?

Se haveis medo de querer-me,

porque isso me mereceis,

e o que mereceis, não faço,

faço por vos merecer.

Mereceis-me já esquecido

do tempo, que vos quis bem,

e nem me lembra esquecer-me

a fim de inda vos querer.

Pelo que sois não vos amo,

que não se adora o cruel,

o belo sim, e eu vos amo,

pelo que me pareceis.

Pois por mais que fôsseis dura,

isenta, ingrata, e cruel,

que vos não quita o ser linda,

não vos quitara o querer.

Agravos não mos fizestes,

males, e injúrias também:

se de alguém hei de queixar-me,

de um ninguém me queixarei.

Vós não tivestes a culpa:

toda a culpa teve, quem

vos quis tratar com lisonjas,

suceda, o que suceder.

Que vos não diz a distância,

que o negro do branco tem,

esse teve a culpa toda,

é amigo, pode-o fazer.

Mas deixando estes queixumes,

que será força ofender

com queixas, quem nunca pôde

com finezas dar prazer:

Digo, que as vossas lembranças

tanto n’alma as estimei,

como vós sois testemunha,

que lá as vistes receber.

Queira Amor restituir-me

dos agravos, que me fez;

e vos faça já a destroca

do branco pelo guiné.