POR ESTE MOLEQUE, QUE DEO AO POETA MUYTAS LEMBRANÇAS DA PARTE DE CATONA, LHE REM...
Mandais-me vossas lembranças,
eu as não hei de mister,
porque de vós sempre as tenho,
quer mas deis, quer não mas deis.
Se o fazer mal não se perde,
como é adágio português,
quem me faz tão grandes males,
como me pode esquecer?
Sinto, que vossas lembranças
me viessem esta vez
na desconfiança envoltas
lembrarei, não lembrarei.
Como não há de lembrar-me
um coração tão cruel,
se as feridas n’alma dadas
nem curadas saram bem?
A cada passo me lembram
os rigores, e os desdéns,
com que, ingrata, castigastes
a culpa de vos querer.
O certo é, que este temor
nasce de vossa má fé,
que quem se sangra em saúde
culpada deve de ser.
De vós mesma desconfiai,
que de mim não pode ser:
de vós sim, que me matastes,
de mim não, que vos amei.
Porque se aquela pessoa
na minha memória fez
entrada por mão de amor,
quem lhe havia de empecer?
Se haveis medo de querer-me,
porque isso me mereceis,
e o que mereceis, não faço,
faço por vos merecer.
Mereceis-me já esquecido
do tempo, que vos quis bem,
e nem me lembra esquecer-me
a fim de inda vos querer.
Pelo que sois não vos amo,
que não se adora o cruel,
o belo sim, e eu vos amo,
pelo que me pareceis.
Pois por mais que fôsseis dura,
isenta, ingrata, e cruel,
que vos não quita o ser linda,
não vos quitara o querer.
Agravos não mos fizestes,
males, e injúrias também:
se de alguém hei de queixar-me,
de um ninguém me queixarei.
Vós não tivestes a culpa:
toda a culpa teve, quem
vos quis tratar com lisonjas,
suceda, o que suceder.
Que vos não diz a distância,
que o negro do branco tem,
esse teve a culpa toda,
é amigo, pode-o fazer.
Mas deixando estes queixumes,
que será força ofender
com queixas, quem nunca pôde
com finezas dar prazer:
Digo, que as vossas lembranças
tanto n’alma as estimei,
como vós sois testemunha,
que lá as vistes receber.
Queira Amor restituir-me
dos agravos, que me fez;
e vos faça já a destroca
do branco pelo guiné.