POR UM ESCRAVO MANDOU O POETA À BETICA HUM FORMOSO CARÁ COM ESTE.

By Gregório de Matos Guerra

Dize a Betica que quando

buscava, que lhe mandar,

um só cará pude achar,

que por ser cará lho mando.

Bernardo, há quase dous anos,

que andais a ir, e a vir

sem podermos conseguir

de Betica, mais que enganos:

se hás de dar fim a meus danos

em vencê-la porfiando

vai trazendo, e vai levando,

e pois já chega a dizer

que hei de lograr, e vencer,

dize a Betica que quando?

Pede-lhe o dia, e a hora,

em que a hei de ver louçã

porque é mui longe amanhã

para uma alma, que a adora:

e porquanto essa Senhora

dá agora em desconfiar,

dos que a não sabem comprar,

dize-lhe, que isso entibia,

a quem já por cortesia

buscava, que lhe mandar.

Que há de ter em grande apreço

os desejos da vontade,

que valem na realidade

mais que a dita do sucesso:

e que se o dar não tem preço,

também se deve estimar,

quem tem desejos de dar,

como eu, que com tanto afinco

desejando achar um brinco,

só um cará pude achar.

Pois se a sorte mais não quis

conceder-me, e deparar-me,

inda assim posso gabar-me,

que lhe dei bem de raiz:

que o que pude, agora fiz,

ao depois de quando em quando

lhe irei aos poucos mandando,

sendo, que tão fora está

de ser pouco esse cará,

que por ser cará lho mando.