POR UM ESCRAVO MANDOU O POETA À BETICA HUM FORMOSO CARÁ COM ESTE.
Dize a Betica que quando
buscava, que lhe mandar,
um só cará pude achar,
que por ser cará lho mando.
Bernardo, há quase dous anos,
que andais a ir, e a vir
sem podermos conseguir
de Betica, mais que enganos:
se hás de dar fim a meus danos
em vencê-la porfiando
vai trazendo, e vai levando,
e pois já chega a dizer
que hei de lograr, e vencer,
dize a Betica que quando?
Pede-lhe o dia, e a hora,
em que a hei de ver louçã
porque é mui longe amanhã
para uma alma, que a adora:
e porquanto essa Senhora
dá agora em desconfiar,
dos que a não sabem comprar,
dize-lhe, que isso entibia,
a quem já por cortesia
buscava, que lhe mandar.
Que há de ter em grande apreço
os desejos da vontade,
que valem na realidade
mais que a dita do sucesso:
e que se o dar não tem preço,
também se deve estimar,
quem tem desejos de dar,
como eu, que com tanto afinco
desejando achar um brinco,
só um cará pude achar.
Pois se a sorte mais não quis
conceder-me, e deparar-me,
inda assim posso gabar-me,
que lhe dei bem de raiz:
que o que pude, agora fiz,
ao depois de quando em quando
lhe irei aos poucos mandando,
sendo, que tão fora está
de ser pouco esse cará,
que por ser cará lho mando.