POR VER HUMA OBRA EM QUE O POETA EXAGERA OS DONAYRES DE ANNICA DE SOUZA MULATA EM PERNAMBUCO SE PICOU DE ZELOS FLORALVA, E DANDO LHO A ENTENDER, ELLE LHE RESPONDE

By Gregório de Matos Guerra

Dos vossos zelos presumo,

Floralva, que são mentira,

porque donde Amor não tira

flama, não levanta fumo:

anos há, que me consumo

por vós, por vossos bons feitos,

e vós por certos respeitos

desviastes-me os prefumes,

e agora nestes ciúmes

sem ver causa, vejo efeitos.

Se me não tendes amor,

como zelos me fingis?

não mos dais, e mos pedis,

dai ao demo tal favor:

que importa, que chame eu flor

a uma papoula silvestre,

se neste globo terrestre

o que importa, é lisonjeira,

e eu nas artes de enganar

penteio barbas de mestre.

Vós sois verdadeira flor

no trato, e no parecer,

e eu só o sei conhecer,

porque sou taful de amor:

se jogásseis com primor,

como outras tafuis fizeram,

nunca elas vos excederam,

que a mim na tafularia

da conjugal dameria

sempre os dados me perderam.

E ainda que em todo o mapa

me vejais tratar com flores,

Floralva, isso são amores,

que arranco da minha capa:

só vós sois dama de chapa,

só vos sois flor às direitas,

e para deixar desfeitas

essas vossas presunções,

sabei, que isso são sezões,

que passam como maleitas.