“Porque o amor uma vez interrompido”

By João da Cruz e Sousa

Porque o amor uma vez interrompido

Não tem a igual efervescência de antes,

E fica indiferente, enfraquecido

Como os vagos amores inconstantes...

Perde todo o calor e toda a forte

Chama que as duas almas aqueceu;

E se parece a regiões da morte

Onde em sepulcros uma flor nasceu.

Que nunca mais teus olhos me procurem

Cheios de afago e de carinho cheios...

Que seja o amor que eles contritos jurem

Como de uns olhos para mim alheios.

Pois tudo o que os teus olhos me disserem

Para reatar um fio que quebrou,

Lembra punhais e lanças que ainda ferem

A ventura que cedo se acabou.

Não me recordes, não me lembres esse

Passado alegre e ao mesmo tempo triste...

Porque eu estou como se já morresse

E dentro em mim já nada mais existe.

Se eu torno a ver-te presa nos meus braços,

Se eu sinto a palma dessa mão tocar

Na minha, e a beijo, como os frouxos laços

Do nosso afeto têm de se apertar?!

Não! Não! Deixa-me assim! Que eu viva embora

Dessa recordação de dor, sozinho!

E se em caminho eu te encontrar agora

Não te lembres de mim pelo caminho.

Que eternamente nós nos separemos

Pela existência, sem saudades mais!

E um dia, que talvez nos encontremos,

Que nenhum de nós dois olhe pra trás!