PREZOS TREZ HOMENS DE QUATRO, QUE POR SEU DESENFADO COSTUMAVÃO TIRAR PEDRADAS AS...

By Gregório de Matos Guerra

Senhores: com que motivo

vós tentastes a fazer,

sem castigo algum temer,

um excesso tão nocivo?

(disse o Algoz compassivo

a um dos da carambola,

quando o leva pela gola)

e a gente, que ali se pôs,

via a pé quedo o Algoz

muitas vezes dar à sola.

Nestas retiradas suas,

que fazia o tal madraço

sacudia-lhe o espinhaço

cum par de soletas cruas:

dava-lhe nas costas nuas

palmadas tão bem dispostas,

que o Mulato co’as mãos postas

disse dos açoutes dados,

sendo dos mais os pecados,

eu somente os levo às costas.

A gente, que isto lhe ouviu,

por saber do caso atroz,

pedia muito ao Algoz,

lho dissesse, e ele se riu:

finalmente prosseguiu

a dizer o caso a uns poucos,

que de pasmo ficam moucos

a alguns deles quase mudos

de ver, que quatro sisudos

tomem ofícios de loucos.

Diz-lhe mais o Algoz pascácio,

que sem terem nisso medras,

os quatro atiraram pedras

as janelas do Palácio:

e que fazendo agarrácio

dos três, escapou de um,

mas cuidando se algum

dos mais lizeiros ao peso,

fora, o que escapou de preso,

mais ligeiro, que nenhum.

Um inocente agarrado

foi também na travessura,

sendo que não faz loucura

moço tão bem inclinado:

outro será castigado

pela ousadia sobeja

e porque este vulgo veja

(se com ele não se engana)

fez, com que pela semana

não fosse o Domingo à Igreja.

Estes outros dous, ou três,

que se agarraram de noite,

se se escaparam do açoite,

terão por certo galés:

Não de sentir o revés

deste excesso, que fizeram,

pois eles assim quiseram:

mas vejo não sentirão,

se por castigo lhes dão

ir para donde vieram.

Vós, que do caso adversário

em seguro vos pusestes,

porque dos pés vos valestes

não sejais tão temerário:

sede nisto imaginário,

pois tão bem destes à sola,

que se noutra carambola

vos meteis co amigo Baco,

ele às vezes é velhaco,

dará convosco em Angola.