QUANDO TE NÃO CONHECIA NADA DE TI SE ME DAVA, NEM PENSAMENTOS DORMIA, SEM CUIADO...

By Nicolau Tolentino de Almeida

De amor às paixões chamava

Inúteis, vãs, e indiscretas;

Ele as suas duras setas

No meu peito em vão quebrava;

Uma e outra me apontava,

Eu a todas resistia;

Mas o valor, que em mim via,

Já, Nize, o não vejo agora.

Que isto tudo foi, senhora,

Quando te não conhecia.

Ah! vil amor, e que ideias

Para prender-me buscaste!

Á bela Nize rogaste

Que me lançasse as cadeias;

Valem-te as forças alheias,

Que das luas eu zombava;

Já dessa funesta aljava

Os tiros mortais receio,

Que se não tens este meio,

Nada de ti se me dava.

Venceste, amor, já contigo

Não disputo o vencimento.

Mas paga-me este tormento

Com tornar-me ao tempo antigo,

Tempo feliz, em que o p’rigo

Do teu ferro não sentia;

Como agora, a noite e o dia

Nunca em lágrimas gastava,

Sem aflições meditava.

Sem pensamentos dormia.

Se de penas suportáveis

Tinha ás vezes a alma presa,

Que na humana natureza

Sempre são indispensáveis.

Eram tão pouco duráveis.

Que facilmente as deixava.

No doce som no lhe achava

Remédio certo e prescrito,

Pois se adormecia aflito,

Sem cuidados acordava.