QUANDO TE NÃO CONHECIA NADA DE TI SE ME DAVA, NEM PENSAMENTOS DORMIA, SEM CUIADO...
De amor às paixões chamava
Inúteis, vãs, e indiscretas;
Ele as suas duras setas
No meu peito em vão quebrava;
Uma e outra me apontava,
Eu a todas resistia;
Mas o valor, que em mim via,
Já, Nize, o não vejo agora.
Que isto tudo foi, senhora,
Quando te não conhecia.
Ah! vil amor, e que ideias
Para prender-me buscaste!
Á bela Nize rogaste
Que me lançasse as cadeias;
Valem-te as forças alheias,
Que das luas eu zombava;
Já dessa funesta aljava
Os tiros mortais receio,
Que se não tens este meio,
Nada de ti se me dava.
Venceste, amor, já contigo
Não disputo o vencimento.
Mas paga-me este tormento
Com tornar-me ao tempo antigo,
Tempo feliz, em que o p’rigo
Do teu ferro não sentia;
Como agora, a noite e o dia
Nunca em lágrimas gastava,
Sem aflições meditava.
Sem pensamentos dormia.
Se de penas suportáveis
Tinha ás vezes a alma presa,
Que na humana natureza
Sempre são indispensáveis.
Eram tão pouco duráveis.
Que facilmente as deixava.
No doce som no lhe achava
Remédio certo e prescrito,
Pois se adormecia aflito,
Sem cuidados acordava.