QUANTA ADMIRAÇÃO QUE LHE CAUSARAM AS MUDANÇAS DO SÍTIO.

By Gregório de Matos Guerra

Ou o sítio se acabou,

ou o mudaram, daqui,

ou eu às cegas o vi,

e a cegueira me cagou:

quando o sítio me logrou,

ou eu o sítio lograva,

o sítio me enfeitiçava,

pelo sítio me morria,

pelas fêmeas, que ali via,

pelas saídas, que achava.

Havia umas fermosuras

mui ledas, e mui louçãs

para qualquer sim mui chãs

para qualquer não mui duras:

hoje há quatro más figuras

mui presumidas, e inchadas,

querem-se muito adoradas,

porém com pretexto errado,

e é que ao fazer do pecado

são fidalgas estiradas.

Outras putinhas malsins

me têm cercado de sorte,

que por ver-me em mãos da morte

não me dão descarga aos rins:

mas como nestes confins

tenho tanta parentela,

dando uma vista a Castela

me deparou logo Amor

na terra uma linda flor,

no céu uma rica estrela.

Fretei-a a pouco trabalho,

e mui pouco me custou,

porque era do ferro, ou

porque era amiga do alho:

veio buscar-me sem falho,

inda durava o luar,

não veio para ficar,

mas eu contudo finquei-o:

com que se a ficar não veio,

contudo veio a fincar.

Como tenho já segura

a carne no garavato,

me rio, que o sítio ingrato

tenha, ou não tenha fartura:

porque em sendo conjuntura,

que é lá pela noite alta,

nunca a Mulatinha falta,

e dêem-me outra Parda forra

em que tudo isto concorra,

geme, gosta, atura, e salta.