QUEIXAS DA SUA MESMA VERDADE.

By Gregório de Matos Guerra

Quer-me mal esta cidade

pela verdade,

Não há, quem me fale, ou veja

de inveja,

E se alguém me mostra amor

é temor.

De maneira, meu Senhor,

que me hão de levar a palma

meus três inimigos d’alma

Verdade, Inveja, e Temor.

Oh quem soubera as mentiras

do Milimbiras,

Fora aqui senhor do bolo

como tolo,

E feito tolo, e velhaco

fora um caco.

Meteria assim no saco

Servindo, andando e correndo

as ligas, que vão fazendo

Milimbiras, Tolo, e Caco.

Tirara cinzas tiranas

das bananas,

Outro se os meus dez réis

de pastéis,

E porque isento não fosse

até do doce.

Teria assim, com que almoce

o meu amancebamento,

pois lhe basta por sustento

Bananas, Pastéis, e Doce.

Prendas, que a empenhar obrigo

pelo amigo,

Dobrar-lhe eu o valor

e primor,

Cobrando em dous bodegões

os tostões.

E seus donos asneirões

ao desfazer da moeda

perdem da mesma assentada

Amigo, Primor, Tostões.

Ao jimbo, que se lhe conta

boa conta,

E já por amigo vejo

sem ter pejo,

Pois lhe tira de corrida

a medida.

Mas verdadeira, ou mentida

a conta ajustada vem,

sendo um homem, que não tem,

Conta, Pejo, nem Medida.

Dever-me-ão camaradas

mil passadas,

E o triste do companheiro

o dinheiro,

E à conta das minhas brasas

as casas.

Assim lhe empatara as vazas,

pois o mesmo, que eu devia,

por força me deveria

Passadas, Dinheiro, e Casas.