QUEM ADORA OCULTAMENTE SEM DECLARAR SEU AMOR, SENTE MIL ÂNCIAS NO PEITO, VIVE CE...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Por que bárbara razão

Um justo amor se reprime,

E ha de julgar-se por crime

Pôr na boca o coração?

Claros olhos ferir vão

Um coração inocente!

Nem ao triste se consente

Dar sinais de seu cuidado!

Deuses! quanto é desgraçado

Quem adora ocultamente!

No peito a chama acendida

As entranhas lhe abrasou;

Mas da ingrata, que a ateou,

É crime ser percebida.

Se deita sangue a ferida

A vista do matador.

Vejam de que nova dor

Sente o triste a alma cortada,

Paliando co’a sua amada

Sem declarar seu amor!

Arde em um fogo escondido:

Pois se conta o seu cuidado.

Além de ser desgraçado,

Chamam-lhe em cima atrevido.

Até quase tem perdido

De olhar o livre direito;

Vive sempre contrafeito;

E entre mil contrários posto,

Mostra alegria no rosto,

Sente mil anciãs no peito.

Busca alegres companhias,

Por curar o mal que sente;

Entra a ingrata de repente,

Despertam-se as cinzas frias.

Ternas árias, sinfonias,

Tudo aviva o seu amor;

Mas dos fados o rigor

Tem sobre ele tais poderes.

Que no meio dos prazeres

Vive cercado de dor.