QUEM SABE

By Delminda Silveira de Sousa

Quem sabe se a branca nuvem

que vai no azul deslizando

a outra nuvem buscando

até se unirem nos Céus,

não é um’alma que voa

em busca da gêmea sua,

e ali, ao clarão da lua,

s’enlaçam unidas por Deus?...

O alvo lírio singelo

da perfumada inocência

que abriu na rica opulência

de sua farta verdura,

se melindroso desmaia

d’aragem ao beijo ofegante,

quem sabe? — naquele instante

se não pendeu de amargura!

Ah! geme a rola sozinha

e a sombra da noite cai,

não teve um ecoo seu — ai —,

porém a triste não cansa!

Quem sabe?... não volve o amante

E ela o esperava ainda,

E aquela saudade infinda

Matou-lhe a doce esperança!

Casal de garças mimosas,

vai pelo lago boiando

dos nenúfares brincando

co’as... aurora abriu;

assim tão alvas, juntinhas,

no mesmo ninho dormindo,

quem sabe — em lago tão lindo

que terno afeto as uniu!

Doce o crepúsculo da tarde

eu cismo e meu peito anseia:

o que minh’alma receia?...

que mágoa d’estranha dor...

Passa a brisa: por meus lábios,

Por meus olhos roça um beijo...

Meu Deus! que vago desejo...

Quem sabe? — Meu Deus! que amor!...