QUERIA O POETA DIVERTIR SEUS AMOROSOS INCENDIOS COM HUMA MOÇA ALI ASSISTENTE, E ...
Eu perco, Nise, o sossego,
e não posso isto entender,
pois vos queixais de não ver,
e eu sou triste, o que ando cego:
que heis de ver? se do pespego,
fugis com ligeiro passo?
não corrais, um breve espaço:
parai: não vos ausenteis
deitai-vos, que vós vereis,
mais vereis, o que eu vos faço.
Eu sou vosso companheiro
nestas cegueiras impias,
pois há mais de trinta dias,
que não posso ver dinheiro:
eu não sou home embusteiro,
hei de vos satisfazer,
e se quereis corriger
a vista sem mais antolhos,
esfregai mui bem os olhos,
e esfregada haveis de ver.
Não me trazeis vós tão farto
que vos deva eu um vintém,
e em Parnamerim ninguém
paga à puta antes do parto:
vós não me entrais no meu quarto,
nem eu os quartos vos bato,
e não sou tão insensato,
que inda que faminto ando,
vos vá o pato pagando,
se sei que outro coma o pato.
Desta sorte, Nise ingrata
de querer de antemão ver,
temo, que sempre heis de ter
na vista essa catarata:
não vereis ouro, nem prata,
e pois vos desassossega,
o jimbo, que se vos nega,
nunca, Nise, o heis de ver,
porque do muito querer
de faminta estais tão cega.