QUERIA O POETA DIVERTIR SEUS AMOROSOS INCENDIOS COM HUMA MOÇA ALI ASSISTENTE, E ...

By Gregório de Matos Guerra

Eu perco, Nise, o sossego,

e não posso isto entender,

pois vos queixais de não ver,

e eu sou triste, o que ando cego:

que heis de ver? se do pespego,

fugis com ligeiro passo?

não corrais, um breve espaço:

parai: não vos ausenteis

deitai-vos, que vós vereis,

mais vereis, o que eu vos faço.

Eu sou vosso companheiro

nestas cegueiras impias,

pois há mais de trinta dias,

que não posso ver dinheiro:

eu não sou home embusteiro,

hei de vos satisfazer,

e se quereis corriger

a vista sem mais antolhos,

esfregai mui bem os olhos,

e esfregada haveis de ver.

Não me trazeis vós tão farto

que vos deva eu um vintém,

e em Parnamerim ninguém

paga à puta antes do parto:

vós não me entrais no meu quarto,

nem eu os quartos vos bato,

e não sou tão insensato,

que inda que faminto ando,

vos vá o pato pagando,

se sei que outro coma o pato.

Desta sorte, Nise ingrata

de querer de antemão ver,

temo, que sempre heis de ter

na vista essa catarata:

não vereis ouro, nem prata,

e pois vos desassossega,

o jimbo, que se vos nega,

nunca, Nise, o heis de ver,

porque do muito querer

de faminta estais tão cega.