QUEYXA-SE A BAHIA POR SEU BASTANTE PROCURADOR, CONFESSANDO, QUE AS CULPAS, QUE LHE INCREPÃO, NÃO SÃO SUAS, MAS SIM DOS VICIOSOS MORADORES,

By Gregório de Matos Guerra

Já que me põem a tormento

murmuradores nocivos,

carregando sobre mim

suas culpas, e delitos:

Por crédito de meu nome,

e não por temer castigo

confessar quero os pecados,

que faço, e que patrocino.

E se alguém tiver a mal

descobrir este sigilo,

não me infame, que eu serei

pedra em poço, ou seixo em rio.

Sabei, céu, sabei, estrelas,

escutai, flores, e lírios,

montes, serras, peixes, aves

luz, sol, mortos, e vivos:

Que não há, nem pode haver

desde o Sul ao Norte frio

cidade com mais maldades,

nem província com mais vícios:

Do que sou eu, porque em mim

recopilados, e unidos

estão juntos, quantos têm

mundos, e reinos distintos.

Tenho Turcos, tenho Persas

homens de nação Impios

Magores, Armênios, Gregos,

infiéis, e outros gentios.

Tenho ousados Mermidônios,

tenho Judeus, tenho Assírios,

e de quantas castas há,

muito tenho, e muito abrigo.

E se não digam aqueles

prezados de vingativos,

que santidade têm mais,

que um Turco, e um Moabito?

Digam Idólatras falsos,

que estou vendo de contino,

adorarem ao dinheiro,

gula, ambição, e amoricos.

Quantos com capa cristã

professam o judaísmo,

mostrando hipocritamente

devoção à Lei de Cristo!

Quantos com pele de ovelha

são lobos enfurecidos,

ladrões, falsos, e aleivosos,

embusteiros, e assassinos!

Estes por seu mau viver

sempre péssimo, e nocivo

são, os que me acusam de danos,

e põem labéus inauditos.

Mas o que mais me atormenta,

é ver, que os contemplativos,

sabendo a minha inocência,

dão a seu mentir ouvidos.

Até os mesmos culpados

têm tomado por capricho,

para mais me difamarem,

porem pela praça escritos.

Onde escrevem sem vergonha

não só brancos, mas mestiços,

que para os bons sou inferno,

e para os maus paraíso.

Ó velhacos insolentes,

ingratos, mal procedidos,

se eu sou essa, que dizeis,

porque não largais meu sítio?

Por que habitais em tal terra,

podendo em melhor abrigo?

eu pego em vós? eu vos rogo?

respondei! dizei, malditos!

Mandei acaso chamar-vos

ou por carta, ou por aviso?

não viestes para aqui

por vosso livre alvedrio?

A todos não dei entrada,

tratando-vos como a filhos?

que razão tendes agora

de difamar-me atrevidos?

Meus males, de quem procedem?

não é de vós? claro é isso:

que eu não faço mal a nada

por ser terra, e mato arisco.

Se me lançais má semente,

como quereis fruito limpo?

lançai-a boa, e vereis,

se vos dou cachos opimos.

Eu me lembro, que algum tempo

(isto foi no meu princípio)

a semente, que me davam,

era boa, e de bom trigo.

Por cuja causa meus campos

produziam pomos lindos,

de que ainda se conservam

alguns remotos indícios.

Mas depois que vós viestes

carregados como ouriços

de sementes invejosas,

e legumes de maus vícios:

Logo declinei convosco,

e tal volta tenho tido,

que, o que produzia rosas,

hoje só produz espinhos.

Mas para que se conheça

se falo verdade, ou minto,

e quanto os vossos enganos

têm difamado o meu brio:

confessar quero de plano,

o que encubro por servir-vos

e saiba, quem me moteja,

os prêmios, que ganho nisso.

Já que fui tão pouco atenta,

que a luz da razão, e o siso

não só quis cegar por gosto,

mas ser do mundo ludíbrio.

Vós me ensinastes a ser

das inconstâncias arquivo,

pois nem as pedras, que gero,

guardam fé aos edifícios.

Por vosso respeito dei

campo franco, e grande auxílio

para que se quebrantassem

os mandamentos divinos.

Cada um por suas obras

conhecerá, que meu xingo,

sem andar excogitando,

para quem se aponta o tiro.