QUEYXA-SE FINALMENTE DE ACHAR TODAS AS DAMAS MENSTRUADAS.
Que têm os menstros comigo?
ordinários que me querem,
que de ordinário me matam,
e cada hora me perseguem?
Estive os dias passados
esperando por um frete,
tardou, não veio, enganou-me,
costume de más mulheres.
Fui logo saber a causa,
e no caminho lembrei-me
de fazer este discurso,
que é cousa, em que lido sempre.
Esta mulher me faltou;
aposto, que há de dizer-me
que está um disciplinante
desde o joelho té o ventre?
Meu dito, meu feito: fui,
entrei, e ao ver-me presente
me disse logo a velhaca
carinhosamente alegre:
Ai, meu Senhor da minha alma
nada pode hoje fazer-se
dei palavra ontem de tarde,
e à noite me veio ele.
Quem é ele? perguntei;
faz você, que não me entende?
disse ela; quem há de ser?
O hóspede impertinente.
Um hóspede, que nas luas
me visita, e me acomete
com tal fúria, que me põe
de sangue um rio corrente.
Estou-me esvaindo já,
em borbotões tão perenes;
que pelas pernas descendo,
ambos os talões me enche.
Botei pela porta fora,
e no primeiro casebre
me colhi de uma putaina
mais negra do que um pivete.
Entrei pela porta dentro,
fui para a cama, e deitei-me,
que as negras também têm cama,
se são putas macatrefes.
Chamei-a, acudiu-me logo,
e me disse cortesmente,
não estou para deitar-me,
bastará, que me atravesse.
Atravessou-se-me aos pés,
e ficou como uma serpe,
coxim para os meus coturnos
para o meu corpo alicerce.
Olhei para a negra então,
e disse comigo os meses
contra mim se deram de olho,
pois tão juntos me perseguem.
Não era o discurso feito
quando me disse “ecce”
mostrou-me a fralda com sangue
mais negro do que uma peste.
Pus-me logo no pedrado,
e comecei a benzer-me
do diabo, que em figura
de Ordinário me persegue.
Fui-me para a minha casa,
e no dia subsequente
me escreveu certa Senhora
que uma palavra lhe desse.
Como era minha Senhora,
fui eu logo obedecer-lhe,
fiz-lhe a visita na sala
e fomos para o retrete.
Vi ali a sua cama,
vinha cansado, deitei-me,
e deitou-se ela comigo,
de que fiquei mui contente.
Mas na mão que lhe corria
junto já do sarambeque,
me agarrou ela, e me disse
tá, que estou porca doente.
Valha-me a Virgem Maria,
que achaque pode ser este?
Aluada estou, (disse ela)
mas em meu juízo sempre.
Fiquei tão desesperado
que se ela me não promete
de estar boa ao outro dia,
não chegara a outros meses.
Que têm os menstros comigo?
Que casta de achaque é este
que nunca a ninguém matou
quando de contino fere?
A quem sucede no mundo
isto, que a mim me sucede?
pois três meses me passaram
dentro em dois dias somente?
Que contrato fez a lua
de arrendamento às mulheres,
para lhe estarem pagando
a pensão todos os meses?
Tornei lá no outro dia,
e achei a pobre doente
mui seca para a visita,
mui úmida para o frete.
Vim, e fui terceira vez,
e se fora três mil vezes,
co’a mesma sangria a achara,
e cos mesmos acidentes.
Despedi-me da mulher
daqui para todo o sempre,
e vendo-a passada entonces
lhe disse os males presentes.
Vicência, discreta sois,
mas não sei, se me entendestes,
para uma vida tão curta
duram muito os vossos meses.