QUEYXA-SE FINALMENTE DE ACHAR TODAS AS DAMAS MENSTRUADAS.

By Gregório de Matos Guerra

Que têm os menstros comigo?

ordinários que me querem,

que de ordinário me matam,

e cada hora me perseguem?

Estive os dias passados

esperando por um frete,

tardou, não veio, enganou-me,

costume de más mulheres.

Fui logo saber a causa,

e no caminho lembrei-me

de fazer este discurso,

que é cousa, em que lido sempre.

Esta mulher me faltou;

aposto, que há de dizer-me

que está um disciplinante

desde o joelho té o ventre?

Meu dito, meu feito: fui,

entrei, e ao ver-me presente

me disse logo a velhaca

carinhosamente alegre:

Ai, meu Senhor da minha alma

nada pode hoje fazer-se

dei palavra ontem de tarde,

e à noite me veio ele.

Quem é ele? perguntei;

faz você, que não me entende?

disse ela; quem há de ser?

O hóspede impertinente.

Um hóspede, que nas luas

me visita, e me acomete

com tal fúria, que me põe

de sangue um rio corrente.

Estou-me esvaindo já,

em borbotões tão perenes;

que pelas pernas descendo,

ambos os talões me enche.

Botei pela porta fora,

e no primeiro casebre

me colhi de uma putaina

mais negra do que um pivete.

Entrei pela porta dentro,

fui para a cama, e deitei-me,

que as negras também têm cama,

se são putas macatrefes.

Chamei-a, acudiu-me logo,

e me disse cortesmente,

não estou para deitar-me,

bastará, que me atravesse.

Atravessou-se-me aos pés,

e ficou como uma serpe,

coxim para os meus coturnos

para o meu corpo alicerce.

Olhei para a negra então,

e disse comigo os meses

contra mim se deram de olho,

pois tão juntos me perseguem.

Não era o discurso feito

quando me disse “ecce”

mostrou-me a fralda com sangue

mais negro do que uma peste.

Pus-me logo no pedrado,

e comecei a benzer-me

do diabo, que em figura

de Ordinário me persegue.

Fui-me para a minha casa,

e no dia subsequente

me escreveu certa Senhora

que uma palavra lhe desse.

Como era minha Senhora,

fui eu logo obedecer-lhe,

fiz-lhe a visita na sala

e fomos para o retrete.

Vi ali a sua cama,

vinha cansado, deitei-me,

e deitou-se ela comigo,

de que fiquei mui contente.

Mas na mão que lhe corria

junto já do sarambeque,

me agarrou ela, e me disse

tá, que estou porca doente.

Valha-me a Virgem Maria,

que achaque pode ser este?

Aluada estou, (disse ela)

mas em meu juízo sempre.

Fiquei tão desesperado

que se ela me não promete

de estar boa ao outro dia,

não chegara a outros meses.

Que têm os menstros comigo?

Que casta de achaque é este

que nunca a ninguém matou

quando de contino fere?

A quem sucede no mundo

isto, que a mim me sucede?

pois três meses me passaram

dentro em dois dias somente?

Que contrato fez a lua

de arrendamento às mulheres,

para lhe estarem pagando

a pensão todos os meses?

Tornei lá no outro dia,

e achei a pobre doente

mui seca para a visita,

mui úmida para o frete.

Vim, e fui terceira vez,

e se fora três mil vezes,

co’a mesma sangria a achara,

e cos mesmos acidentes.

Despedi-me da mulher

daqui para todo o sempre,

e vendo-a passada entonces

lhe disse os males presentes.

Vicência, discreta sois,

mas não sei, se me entendestes,

para uma vida tão curta

duram muito os vossos meses.