QUEYXA-SE O POETA DAS FUNDADORAS, QUE VIERAM DE EVORA, POR NÃO PODER CONSEGUIR A...
Estamos na cristandade?
Sofrer se há isto em Argel,
que um convento tão novel
deixe um leigo por um Frade?
que na roda, ralo, ou grade
Frades de bom, e mau jeito
comam merenda e eito,
e estejam a seu contento
feitos papas do convento,
porque andam co papo feito?
Se engordar a fradaria
a esta cidade os trouxeram,
melhor fora, que vieram,
sustentar a Infantaria:
que importa, que cada dia
façam obras, casas fundem,
se os Fradinhos as confundem
por modo tão execrando,
que quanto elas vão fundando,
tudo os Frades lhes refundem.
Pelo jeito, que isto leva,
cuidam, que em Évora estão,
onde de Inverno, e Verão
se põem os marrões de ceva:
nenhuma jamais se atreva
sob pena de excomunhão
a cevar o seu marrão,
que se em tais calamidades
me asseguram, que são Frades
arto em cevá-los lhe irão.
Sirvam-se do secular,
que ali está o garbo, o asseio,
o primor, o galanteio,
a boa graça, o bom ar:
a este lhe hão de falar
à grade, ao pátio, ao terreiro,
que o secular todo é cheiro,
e o Frade a mui limpo ser,
sempre há de vir a feder
ao cepo de um Pasteleiro.
Em chegando à grade um Frade
sem mais carinho, nem graça,
o braço logo arregaça,
e o trespassa pela grade:
e é tal a qualidade
de qualquer Frade faminto,
que em um átomo sucinto
se vê a freira coitada
como um figo apolegada,
e molhada como um pinto.
O secular entendido,
encolhido e mesurado
não pede de envergonhado,
não toma de comedido:
cortesmente de advertido,
e de humilde cortesão
declara a sua afeição,
e como se agravo fora,
chama-lhe sua Senhora,
chama-lhe, e pede perdão.
Mas o Frade malcriado,
o vilão, o malhadeiro
nos modos é mui grosseiro,
nos gostos mui depravado:
brama, qual lobo esfaimado,
porque a Freira se destape,
e quer, porque nada escape,
levar logo a causa ao cabo,
e fede como o diabo
ao budum do trape-zape.
Portanto eu vos admoesto,
que o mimo, o regalo, o doce
o secular vo-lo almoce,
que a um Frade basta um cabresto:
toda Freira de bom gesto
se entregue em toda a maneira
a um leigo, que bem lhe queira,
e faltando ao que lhe pedem,
praza a Deus, que se lhe azedem
os doces na cantareira.