QUEYXA-SE O POETA DAS FUNDADORAS, QUE VIERAM DE EVORA, POR NÃO PODER CONSEGUIR A...

By Gregório de Matos Guerra

Estamos na cristandade?

Sofrer se há isto em Argel,

que um convento tão novel

deixe um leigo por um Frade?

que na roda, ralo, ou grade

Frades de bom, e mau jeito

comam merenda e eito,

e estejam a seu contento

feitos papas do convento,

porque andam co papo feito?

Se engordar a fradaria

a esta cidade os trouxeram,

melhor fora, que vieram,

sustentar a Infantaria:

que importa, que cada dia

façam obras, casas fundem,

se os Fradinhos as confundem

por modo tão execrando,

que quanto elas vão fundando,

tudo os Frades lhes refundem.

Pelo jeito, que isto leva,

cuidam, que em Évora estão,

onde de Inverno, e Verão

se põem os marrões de ceva:

nenhuma jamais se atreva

sob pena de excomunhão

a cevar o seu marrão,

que se em tais calamidades

me asseguram, que são Frades

arto em cevá-los lhe irão.

Sirvam-se do secular,

que ali está o garbo, o asseio,

o primor, o galanteio,

a boa graça, o bom ar:

a este lhe hão de falar

à grade, ao pátio, ao terreiro,

que o secular todo é cheiro,

e o Frade a mui limpo ser,

sempre há de vir a feder

ao cepo de um Pasteleiro.

Em chegando à grade um Frade

sem mais carinho, nem graça,

o braço logo arregaça,

e o trespassa pela grade:

e é tal a qualidade

de qualquer Frade faminto,

que em um átomo sucinto

se vê a freira coitada

como um figo apolegada,

e molhada como um pinto.

O secular entendido,

encolhido e mesurado

não pede de envergonhado,

não toma de comedido:

cortesmente de advertido,

e de humilde cortesão

declara a sua afeição,

e como se agravo fora,

chama-lhe sua Senhora,

chama-lhe, e pede perdão.

Mas o Frade malcriado,

o vilão, o malhadeiro

nos modos é mui grosseiro,

nos gostos mui depravado:

brama, qual lobo esfaimado,

porque a Freira se destape,

e quer, porque nada escape,

levar logo a causa ao cabo,

e fede como o diabo

ao budum do trape-zape.

Portanto eu vos admoesto,

que o mimo, o regalo, o doce

o secular vo-lo almoce,

que a um Frade basta um cabresto:

toda Freira de bom gesto

se entregue em toda a maneira

a um leigo, que bem lhe queira,

e faltando ao que lhe pedem,

praza a Deus, que se lhe azedem

os doces na cantareira.