QUEYXAVA-SE IZABEL DO POETA, ELLE A SATISFAZ CAVILOSAMENTE NESTE ROMANCE.

By Gregório de Matos Guerra

Beleta, eu zombeteava,

que nunca falei deveras

satirizando as amigas,

senão contando finezas.

Vós não dormis co Alexandre,

nem o rapaz tal intenta,

nem da janela saltou,

nem foi passado por merda.

Tudo é embustes de moços,

tudo são contos de velhas,

e se o sítio o diz assim,

mente o sítio, e toda a terra.

Mas quem ao Amor tirara,

que mil ciúmes conceba

da mais pequena mentira,

e da mais leve suspeita.

Eu ouvia, e escutava,

e passava estas misérias

de manhã pelos ouvidos,

de tarde pelas orelhas.

Entendi, que assim seria,

imaginei, que assim era,

que a um amor de bom gosto

sempre acompanha má estrela.

Senti a minha fortuna,

queixei-me da vossa ofensa:

quem com finezas ofende,

como agradará com queixas?

Muger llora, y vencerás,

dizia a doutor Poeta,

vós chorastes, e vencestes,

e eu choro, por quem me vença.

Estais tão justificada

no juízo das suspeitas,

que Amor vos absolve já,

se lhe prometeis emenda.

Retirai-vos de rapazes,

que é gente, que se conversa,

é força, que infama a casa,

pelas cócegas, que deixa.

Enxugai, Beleta, o pranto,

em riso se torne a queixa,

comei cajus, e voltai,

que a minha fruita está certa.