QUIXOTADA, SÁTIRA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Espicaça esse animal,

Companheiro Sancho Pança,

Entremos em Portugal,

E vamos molhar a lança

A pró do triste Pombal.

Poetas principiantes,

Já estou em circo raso:

Também Apolo é Cervantes,

Também cria no Parnaso

Seus cavaleiros andantes.

Não vos chamo, ó sujo rancho.

Que até os versos errais;

Em tal sangue as mãos não mancho:

Para vós e outros que tais

Sobeja a espada de Sancho.

Sobre vós carrego a mão,

Sobre vós, ó folhas velhas.

Que dais num homem no chão,

Sem vos lembrar, que entre ovelhas

É fraqueza ser leão.

Essa boca enganadora,

Que é hoje da maldição.

Mil vezes se pôs outra hora

Sobre a praguejada mão,

E lhe chamou benfeitora.

Pois já que vós sois assim,

Povo revoltoso e ingrato,

Hoje castigar-vos vim:

Ireis pelo pó do gato,

Nem esp’reis quartel em mim.

Santo Tejo, o curso enfreia,

E montando rochas duras

Torna atrás a clara veia:

Conta novas aventuras

Á formosa Dulcineia.

Nova guerra o mundo veja,

Guerra em que pouco se arrisca:

Serão armas na peleja,

Provado fuzil e isca,

Seca, espinhosa carqueja.

Irmão Sancho, põe-te a pé,

Põe essas rimas a prumo,

Princípio à obra se dê.

Tolde o ar o negro fumo

Deste novo auto-da-fé.

Queima essas sátiras frias,

Faltas de siso e conselho:

Queima prosas e poesias:

Acabe o cansado velho

Em paz os seus tristes dias.

Porém poupa sempre alguma

Das raras que tem sabor:

Das outras nem deixes uma,

Dessas que tudo é rancor,

E poesia nenhuma.

Em tanto as armas pendura:

Mas se houver desassisados,

Que queiram guerra mais dura.

Da minha lança cortados

Descerão à sepultura.

Já nuvens de fumo vejo:

Já chama brilhante o arreda:

Já se farta o meu desejo:

Já da viva lavareda

Dá o clarão sobre o Tejo.

Essas cinzas denegridas,

Que ao velho poupam mil mágoas,

Leve-as o Tejo envolvidas,

Fiquem no fundo das águas

Para sempre submergidas.

Vês, Sancho, do nome meu

Como voa a clara fama?

Nem viva alma apareceu

A apagar a voraz chama.

Ninguém, ninguém se atreveu!

Vês como ajuda o destino

A um bom cavaleiro andante?

Não precisei de aço fino.

Nem de pés de rocinante.

Nem do elmo de Mambrino.

Ó tu que alçaste a viseira

Forcejando os nervos velhos,

E para ver a fogueira

Limpaste os olhos vermelhos

Na felpuda cabeleira:

Abaixa a proa uma vez.

Chega a Dulcineia beija,

E dize posto a seus pés:

“Formosíssima donzela.

Eu sou um triste marquês,

“Que fugindo a um povo inteiro,

A quem metera em furor

Minha privança e dinheiro.

Vim achar mantenedor

Em teu nobre cavaleiro.

“Disse este povo malvado,

Que eu linha o reino extorquido;

Que era gatuno afamado,

Ê que em jogos de partido

Tinha com todos levado;

“Que no tabaco levava

Um quinhão avantajado;

Que o sabão não me escapava;

É que sem ser deputado

Nas companhias entrava.

“Das minhas leis murmuravam

E o seus pequenos juízos

Tão pouco o ponto tocavam,

Que sempre me eram precisos

Assentos que as declaravam.

“Té na língua sem motivo

Deram críticos revezes:

Fiz n’ela estudo excessivo,

Bebi nos bons portugueses

Monopólio, e respectivo.

“Disse mais o povo insano,

Que perdi de Roma o trilho;

Que fui sultão soberano;

Que andei casando meu filho

Segundo o rito olhomano,

“Mas toda a maldade é sua:

Vêm riquezas e palácio,

Comem-se de inveja crua:

São uns novos cães de Horácio

Ladrando debalde à lua.

“Já se me dá pouco ou nada

Da sua guerra pequena:

Tenho gente em campo armada,

Tenho Mendonça co’a pena,

E Dom Quixote co’a espada. “

Esta fala, ou outra igual,

Acabada, meu marquês,

Faze reverência formal,

E arrasta os gotosos pés

Para a vila do Pombal

Nela vive descansado,

Porque as águas vão serenas;

Sempre ministro de estado,

Mandando cousas pequenas

No teu Lopes encostado.

Junto à estátua vil canalha

Desprende as línguas tiranas;

E se esta rude gentalha

Arrancar com mãos profanas

A carrancuda medalha;

Armas em ouro gravadas

Ser-te-ão por mim erigidas,

E por ti mesmo traçadas,

Em sangue humano tingidas,

E com mil leis penduradas.