QUIXOTADA, SÁTIRA
Espicaça esse animal,
Companheiro Sancho Pança,
Entremos em Portugal,
E vamos molhar a lança
A pró do triste Pombal.
Poetas principiantes,
Já estou em circo raso:
Também Apolo é Cervantes,
Também cria no Parnaso
Seus cavaleiros andantes.
Não vos chamo, ó sujo rancho.
Que até os versos errais;
Em tal sangue as mãos não mancho:
Para vós e outros que tais
Sobeja a espada de Sancho.
Sobre vós carrego a mão,
Sobre vós, ó folhas velhas.
Que dais num homem no chão,
Sem vos lembrar, que entre ovelhas
É fraqueza ser leão.
Essa boca enganadora,
Que é hoje da maldição.
Mil vezes se pôs outra hora
Sobre a praguejada mão,
E lhe chamou benfeitora.
Pois já que vós sois assim,
Povo revoltoso e ingrato,
Hoje castigar-vos vim:
Ireis pelo pó do gato,
Nem esp’reis quartel em mim.
Santo Tejo, o curso enfreia,
E montando rochas duras
Torna atrás a clara veia:
Conta novas aventuras
Á formosa Dulcineia.
Nova guerra o mundo veja,
Guerra em que pouco se arrisca:
Serão armas na peleja,
Provado fuzil e isca,
Seca, espinhosa carqueja.
Irmão Sancho, põe-te a pé,
Põe essas rimas a prumo,
Princípio à obra se dê.
Tolde o ar o negro fumo
Deste novo auto-da-fé.
Queima essas sátiras frias,
Faltas de siso e conselho:
Queima prosas e poesias:
Acabe o cansado velho
Em paz os seus tristes dias.
Porém poupa sempre alguma
Das raras que tem sabor:
Das outras nem deixes uma,
Dessas que tudo é rancor,
E poesia nenhuma.
Em tanto as armas pendura:
Mas se houver desassisados,
Que queiram guerra mais dura.
Da minha lança cortados
Descerão à sepultura.
Já nuvens de fumo vejo:
Já chama brilhante o arreda:
Já se farta o meu desejo:
Já da viva lavareda
Dá o clarão sobre o Tejo.
Essas cinzas denegridas,
Que ao velho poupam mil mágoas,
Leve-as o Tejo envolvidas,
Fiquem no fundo das águas
Para sempre submergidas.
Vês, Sancho, do nome meu
Como voa a clara fama?
Nem viva alma apareceu
A apagar a voraz chama.
Ninguém, ninguém se atreveu!
Vês como ajuda o destino
A um bom cavaleiro andante?
Não precisei de aço fino.
Nem de pés de rocinante.
Nem do elmo de Mambrino.
Ó tu que alçaste a viseira
Forcejando os nervos velhos,
E para ver a fogueira
Limpaste os olhos vermelhos
Na felpuda cabeleira:
Abaixa a proa uma vez.
Chega a Dulcineia beija,
E dize posto a seus pés:
“Formosíssima donzela.
Eu sou um triste marquês,
“Que fugindo a um povo inteiro,
A quem metera em furor
Minha privança e dinheiro.
Vim achar mantenedor
Em teu nobre cavaleiro.
“Disse este povo malvado,
Que eu linha o reino extorquido;
Que era gatuno afamado,
Ê que em jogos de partido
Tinha com todos levado;
“Que no tabaco levava
Um quinhão avantajado;
Que o sabão não me escapava;
É que sem ser deputado
Nas companhias entrava.
“Das minhas leis murmuravam
E o seus pequenos juízos
Tão pouco o ponto tocavam,
Que sempre me eram precisos
Assentos que as declaravam.
“Té na língua sem motivo
Deram críticos revezes:
Fiz n’ela estudo excessivo,
Bebi nos bons portugueses
Monopólio, e respectivo.
“Disse mais o povo insano,
Que perdi de Roma o trilho;
Que fui sultão soberano;
Que andei casando meu filho
Segundo o rito olhomano,
“Mas toda a maldade é sua:
Vêm riquezas e palácio,
Comem-se de inveja crua:
São uns novos cães de Horácio
Ladrando debalde à lua.
“Já se me dá pouco ou nada
Da sua guerra pequena:
Tenho gente em campo armada,
Tenho Mendonça co’a pena,
E Dom Quixote co’a espada. “
Esta fala, ou outra igual,
Acabada, meu marquês,
Faze reverência formal,
E arrasta os gotosos pés
Para a vila do Pombal
Nela vive descansado,
Porque as águas vão serenas;
Sempre ministro de estado,
Mandando cousas pequenas
No teu Lopes encostado.
Junto à estátua vil canalha
Desprende as línguas tiranas;
E se esta rude gentalha
Arrancar com mãos profanas
A carrancuda medalha;
Armas em ouro gravadas
Ser-te-ão por mim erigidas,
E por ti mesmo traçadas,
Em sangue humano tingidas,
E com mil leis penduradas.