RECATAVA-SE PRUDENTEMENTE ESTA BELEZA DAS DEMASIAS DE SEU FUTURO ESPOSO, MAS ELE AVALIANDO ESTE DESDÉM POR TIRANIA RECORRE SEGUNDA VEZ AOS MONTES, COMO ESCARMENTADO DE AMOR NO PRIMEIRO OBJETO.

By Gregório de Matos Guerra

Montes, eu venho outra vez

aliviar-me convosco,

perdoai, se com meus ais,

vosso silêncio interrompo.

Já sabeis, montes amigos,

que amo, estimo, quero, adoro;

mas de que serve cansar-vos,

já sabeis, montes, que morro.

À conta do que me lembram

aqueles olhos irosos,

que no meu sentir são raios,

e nunca a meu ver são olhos.

Lembra-me o rico cabelo,

que na oficina dos ombros

me reforma estas meninas

de seus anéis preciosos.

Lembra-me o rosto gentil,

e ver eu no gentil rosto

escondido um não sei quê,

que me matou, não sei como.

Lembra-me logo a muita alma,

com que move o airoso corpo,

e nem debalde em o vendo

de ver tanta alma me assombro.

Oh quem pudera dizer-vos

outras mil partes, que escondo

de recatado, podendo

dizê-las de vanglorioso.

Lembra-me Marfida enfim:

mas que digo eu? que vos conto?

porque se dela jamais

me esqueço, como me acordo!

Isto pois venho a dizer-vos,

e a contar, montes, de novo,

que de mil ânsias, que planto,

um só favor não recolho.

Limitar certos favores

com fingidos pressupostos,

se não vai de estorvo alheio,

vai de desapego próprio.

Retorceder as vontades,

e esbulhar da posse os logros

toca em arrependimento,

se acaso não peca em ódio.

Desigualar as ações,

e alterar cad’hora os modos,

se é por acinte, não gabo,

se é por exame, não louvo.

Desdenhar-se a meus carinhos,

quem é afável com todos,

isso é dizer-me na cara,

que é aborrecido seu dono.

Faltar nos prometimentos,

ser pontual nos degostos,

curta nas satisfações,

larguíssima nos opróbrios:

Executar tiranias,

endurecer-se com rogos,

prezar-se de isenções,

enfim matar-me por gosto:

Que há de ser montes amigos,

senão haver feito eu próprio

ingratíssima a Marfida

a puro afeto amoroso.

Que há de ser, se o ser constante

em um fino é desabono,

e assim eu mais me malquisto,

quanto mais fino me mostro?

Que há de ser, se quando as setas

de Amor em Marfida aponto,

ela as solta contra mim,

e em meu próprio amor me corto?

Faz-me mal, o que lhe quero,

dá-me em saber, que a adoro,

e é tarde para escondê-lo

a seu juízo, e seus olhos.

Quisera ingrata chamar-lhe,

porém nem devo, nem ouso,

que em dizer mal do que quero,

desacredito meu gosto.

Tende-me, montes, segredo,

não saibam nestes contornos,

quem é a ingrata Marfida,

e o triste Pastor Ausônio.