Recordações

By João da Cruz e Sousa

Recordações! — E para que de tudo

Aquilo que morreu e está passado,

Frio, gelado, para sempre mudo,

Recordar o perfume idolatrado?!

Para que prosseguir, tomar ainda

Às mesmas passageiras ilusões,

Se ao mesmo tempo que começa finda

A crença e a fé dos nossos corações?

Para que revolver cinzas tão frias

E sofrer mais que nas passadas eras

O tormento, o pesar que as alegrias

No peito faz emurchecer deveras?

Oh! deixemos dormir no esquecimento

Os sonhos findos, ilusórios, vãos;

E sejamos, num doce pensamento,

Na vida, apenas como dois irmãos.