REFORÇA O POETA SEUS ENGANOS PROTESTANDO, QUE QUER SOMENTE AMAR POR AMAR, SEM OU...
Menina: estou já em crer,
que não é vosso rigor
crueldade: mas temor,
que tendes de vos render
hei de dar-vos a entender
por mais vos desenganar,
que só pertendo adorar
isento, e independente,
que o querer do pertendente
é mui distinto do amar.
Bem posso sem ser amado,
amar-vos, minha Senhora,
porque amor sempre melhora
o fino em o desgraçado:
no impossível adorado
está o afeto maior,
que quem aspira ao favor
em sua dor importuna,
faz lisonjas à fortuna,
e não serviços a Amor.
Se do meu conhecimento
nasceu a minha vontade,
não pague uma divindade
ter eu este entendimento:
que mais agradecimento
quer uma amante paixão,
que amar, e amar com razão?
e se é preciso querer
ao belo, porque há de ser
mérito a obrigação?
O amar correspondido
não é o mais perfeito amar,
que não se hão de equivocar
amante, e agradecido:
sempre contingência há sido
o rigor, ou a clemência
e se da correspondência
nascera sempre a vontade,
não fora Amor divindade,
porque o fosse a contingência.
Todo amante, que procura
ser em seu amor ditoso,
tem ambição ao formoso,
não amor à formosura:
quem idolatra a luz pura
da beleza rigorosa,
com fineza generosa
ame sempre desprezado,
porque o ser eu desgraçado,
não vos tira o ser formosa.
Não ser de vós admitido
acredita o meu cuidado,
logo a ser tão desprezado
devo estar agradecido:
rigores peço sofrido,
não clemência, nem piedade,
porque inútil é a vontade,
que deixa em sua fineza
pelos logros da beleza
respeitos da divindade.