REFUTAÇÃO

By José Joaquim Correia de Almeida

Li, meu caro redator,

Os versos do bom Correia;

Rendo encômios ao primor,

Ao estilo, ao estro, à veia

Do sábio vate Mineiro,

Qu’é do Parnaso um luzeiro.

Porém como não combino

Com sua argumentação,

E mui diferente opino

Em o exame da questão,

Com vênia vista requeiro

Para embargos de terceiro.

Diz-nos sua reverência

Que a propensão do sujeito

É cousa de permanência,

E querer dar-lhe outro jeito

Seria uma asneira forte,

Por ser da natura ou sorte.

É verdade que a natura

Influi muito em qualquer cujo

Assim como que a finura

Em o olfato do sabujo

Quase sempre vem da raça

Destinada a certa caça.

Mas o tempo tem mudado

E com ele a condição

Que também tem-se amoldado

Às regras da educação,

Da ciência e do direito,

Ante as quais tudo é sujeito.

As mesmas cousas sem vida

Não têm regra em serventia;

A modernice na lida

Do progresso cada dia

Muda a forma, a aplicação;

Dá novo jeito e feição.

O bruto mais indomável

Que nas brenhas se escondia,

Vem na cidade habitável

Dar mostras de cortesia,

Faz a paz, torna-se amigo

Do natural inimigo.

Mecenas, honra do Lácio,

Que a natureza estudava

Com o velho poeta Horácio,

Se hoje vivesse, ficava

De queixo à banda caído

Vendo tudo confundido.

O mesmo mestre que as leis

Doutrora tanto estudou,

E que mereceu de reis

As honras de que gozou,

Poderia hoje aprender

Impossíveis de se crer.

A água que apaga o fogo,

Quando Horácio pensaria

Que dela fazendo jogo

A ciência poderia

Tirar o mesmo elemento

Que ela apaga num momento?

Mecenas ousou pensar

Que fino arame pudesse

Os mares atravessar,

E num momento trouxesse

Respostas do que levou

Às nações onde tocou?

Decerto, amigo, que não;

Visto como essa não era

Do arame a aplicação,

Mas a ciência que impera

Moveu a eletricidade,

Deu-lhe nova utilidade.

O ferro que antigamente

Só para enxadas servia;

Hoje em máquina fervente

Percorre terrestre via,

Sulca os mares com ardor

Impelido do vapor.

A água que na montanha

Tudo o que topa despenha,

Com jeito e com artimanha

Faz que um carro se mantenha,

E o guinda bem carregado

Por sobre um plano inclinado.

A mina que arrebentava,

Pondo-se fogo ao murrão,

E que desastres causava

Na rapidez da explosão,

Dá mil tiros num momento

Com elétrico instrumento.

E se as cousas facilmente

São sujeitas à mudança,

E se as domam docemente

Estudo e perseverança,

Muito mais a criatura

Obra-prima da natura.

O animal feroz bravio,

O tigre, a hiena, o leão,

Já cede ao mando macio

Da pequenina alva mão

De Labarrère afumada,

Heroína denodada.

O gato por condição

É inimigo do rato;

Mas eu já vi em prisão

Comerem no mesmo prato,

Brincarem ambos juntinhas

Um do outro bem amiguinhos.

Tenho visto perdigueiros

De raça muito apurada

Ficarem bons veadeiros,

E gozos sem valer nada

Caçarem a codorniz,

E levantarem perdiz.

Cavalos que desprezados

Foram de sela e cangalha

Tenho visto ajaezados,

Dançar, comer a migalha

Que na boca lhes of’recem

Volantins a que obedecem.

E se os brutos facilmente

Mudam sua condição,

Se amoldam-se docemente

À força da educação,

Muito mais a criatura

Obra-prima da natura.

O corpo humano se dobra

Lá desse homem de borracha

Que enrosca-se como cobra,

Que todo se des’tarraxa,

Que salta como serpente,

E que encanta a toda gente.

Mas será da natureza

Vergarem ossos humanos

Que são por lei-de dureza?

Oh que não. Só os arcanos

Da ciência e da vontade

Produzem tal raridade.

Deixa o homem sua vida,

Sua antiga profissão,

Troca o sossego por lida,

A lida pela oração;

Troca virtudes por vício,

O ócio por seu ofício.

O general afumado

Que cingiu valente espada,

E que salvou denodado

Sua pátria ameaçada,

Deixa a glória, o valimento,

E se encerra num convento.

O santo padre romano,

Segundo diz a versão,

Foi soldado veterano

Do grande Napo leão;

Trocou morrião, espada,

Pela tiara sagrada.

Do regimento mineiro

Um bispo também saiu,

Que ao pé do altar brasileiro

Dourada mitra cingiu.

Também alguns magistrados

De lá não foram tirados?

Matheu, carrasco d’Espanha,

Converteu-se em ermitão;

Vidocq, que na montanha

Roubou o nobre, o vilão,

Foi depois polícia fino,

E foi terror do assassino.

Partidistas declarados

Têm virado a casaquinha;

Saquaremas exaltados,

Amantes da Luziinha,

Todos dobrado se têm

À posição que convém.

E até na quadra presente

Reuniu-se o cão ao gato,

Abraçou-se toda a gente

Sem maior espalhafato,

E o chimanguinho e o cascudo

Estão concordes em tudo.

Conheço mesmo tropeiros

Que amavam bestas, bornais,

Feitos hoje fazendeiros,

Arrotando capitais,

Requerendo baronatos,

Excelências e mais tratos.

Muitos paus de laranjeira

Esquecem a condição,

E fidalguia à ligeira

Blasonam com presunção,

Querendo dar outro jeito

Ao que os pais haviam feito.

Como pois, meu bom Correia,

Nos diz sua reverência,

Que a cousa que nasceu feia

Nunca muda sua essência,

Se vemos tudo mudado,

Todo o mundo baralhado?

Esse mesmo demandista

Que não sai dos auditórios,

Que regala o tabaquista,

Derramando palanfrórios,

Se encontra acomodação

A agarra logo coa mão.

Pois a justiça hoje em dia

Já não tem olhos vendados

Para ver o que não via,

(C’est-à-dire, os afilhados

Que no tempo de eleição

Trocam votos por questão.)

O caçador da montanha,

Que conta com alegria

A assinalada façanha

Que operou durante o dia,

Até imitando o fogo

Com que o bicho caiu logo;

Se lhe dão um empreguinho

Em boa repartição,

Deixa o coelho, o passarinho,

Encosta arma, vende o cão,

Pega na pena arrogante,

Ainda sendo ignorante.

O tocador de viola,

Que canta lundu chistoso,

Um dia lhe dá na bola

Que deve ser mais ditoso,

E requer ser professor,

Escrivão ou contador.

Esse amansador de burros

Que de perna toda tesa

Sustém corcovos e urros

Da besta que com fereza

O quer no chão apinchar,

Mas qu’ele sabe domar;

Não se contenta com isso,

E no dia imediato

Julgando que faz serviço

Ao povo pouco sensato,

Improvisa-se advogado

Ou charlatão consumado.

Os rapazes que deviam

Por seu gênio turbulento

Sentar praça onde podiam

Ser valentes a contento,

Padrecos se vão formar

Para o clero deslustrar.

E outros que oficiais

Seriam mais proveitosos,

Estudam porque seus pais,

Que são homens dinheirosos,

Querem ter seu doutorzinho,

Embora saia um burrinho.

Portanto, meu caro amigo,

Não o posso acompanhar,

Pois tudo quanto lhe digo

Parece contrariar

Sua sábia opinião

Que acato em contradição.

Eu também que tenho a balda

De meu versinho escrever,

Quando a cabeça se escalda

E me faz noites perder,

Conquanto seja meu fraco

As sátiras com que ataco;

Assim mesmo vezes mil

Canto amores, tanjo a lira

Ao luar de um céu de anil,

Que doces canções me inspira

No devaneio em que a mente

Se arrebata toda ardente.

Mas não penseis que pretendo

Com esta refutação,

Que à toa vou escrevendo,

Negar-vos veneração;

O meu fito é só brincar,

É somente versejar.

Nenhum cálculo financeiro

A minha Musa procura,

Nem pretendo ir ao livreiro

Dar sintomas de loucura,

Trocando o rude trabalho

Por palhas e cascas d’alho.

Não quero nome de vate,

Alta glória não pretendo,

Assim só peço em remate

Ao Correia Reverendo

Que me conceda o perdão

Por vir meter-me a tralhão.

“Neste resumido esboço

Formado de linhas toscas,

A verdade mostrar posso

Sem parafusos nem roscas,

E por conclusão repito

O que a princípio foi dito:

É verdade que a natura

Influi muito em qualquer cujo,

Assim como que a finura

Em o olfato do sabujo

Quase sempre vem da raça

Destinada a certa caça.”

Mas o tempo tem mudado

E com ele a condição

Que também tem-se amoldado

Às regras da educação,

Da ciência e do direito

Ante as quais tudo é sujeito.