Regina Coeli

By João da Cruz e Sousa

Ó Virgem branca, Estrela dos altares,

Ó Rosa pulcra dos Rosais polares!

Branca, do alvor das âmbulas sagradas

E das níveas camélias regeladas.

Das brancuras de seda sem desmaios

E da lua de linho em nimbo e raios.

Regina Coeli das sidéreas flores,

Hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.

Ave de prata e azul, Ave dos astros...

Santelmo aceso, a cintilar nos mastros...

Gôndola etérea de onde o Sonho emerge...

Água Lustral que o meu Pecado asperge.

Bandolim do luar, Campo de giesta,

Igreja matinal gorjeando em festa.

Aroma, Cor e Som das Ladainhas

De Maio e Vinha verde dentre as vinhas,

Dá-me através de cânticos, de rezas,

O Bem, que almas acerbas torna ilesas.

O Vinho d’ouro, ideal, que purifica

das seivas juvenis a força rica.

Ah! faz surgir, que brote e que floresça

A Vinha d’ouro e o vinho resplandeça.

Pela Graça imortal dos teus Reinados

Que a Vinha os frutos desabroche iriados.

Que frutos, flores essa Vinha brote

Do céu sob o estrelado chamalote.

Que a luxúria poreje de áureos cachos

E eu um vinho de sol beba aos riachos.

Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli,

Vinho é o clarão que teu Amor impele.

Que desabrocha ensanguentadas rosas

Dentro das naturezas luminosas.

Ó Regina do Mar! Coeli! Regina!

Ó Lâmpada das naves do Infinito!

Todo o Mistério azul desta Surdina

Vem d’estranhos Missais de um novo Rito!...