REGRA DE BEM VIVER, QUE A PERSUASÕES DE ALGUNS AMIGOS DEO A HUNS NOYVOS, QUE SE ...

By Gregório de Matos Guerra

Será primeiramente ela obrigada,

Enquanto não falar, estar calada:

Item por nenhum caso mais se meta

A romper fechaduras da gaveta,

Salvo, se por temer algum agouro,

Quiser tirar de dentro a prata, e ouro.

Lembre-se de ensaboar, quem a recreia,

Porém não há de ser de volta, e meia,

E para parecer mulher, que poupa,

Não se descuide em romendar-lhe a roupa,

Mas porém advertindo, que há de ser,

Quando ele de raiva a não romper,

Que levar merecia muito açoite

Por essa, que rompeu onte onte a noite

Furioso, e irado

Diante de seu Pai e seu Cunhado,

Que esteve em seu romper com tal azar.

E eu em pontos também de me rasgar.

Irá mui poucas vezes à janela,

Mas as mais que puder irá à panela:

Ponha-se na almofada até o jantar,

E tanto há de cozer, como há de assar:

Faça-lhe um bocadinho mui caseiro,

Porém podendo ser, coma primeiro,

E ainda que o veja pequenino,

Não lhe dê de comer como a menino.

Quando vier de fora, vá-se a ele,

E faça por se unir pele com pele,

Mas em lhe dando a sua doencinha,

De carreira se vá para a cozinha,

E mande a Madalena com fervor

Pedir a sua Mãe água-de-flor;

Isto deve observar sem mais propostas,

Se quiser a saúde para as costas.

Isto deve fazer,

Se com o bem casado quer viver;

E se a regra seguir,

Cobrará boa fama por dormir,

Na qual interessado muito vai

Seu Cunhado, seu Pai, e sua Mãe.

E adeus, que mais não posso ou mais não pude;

Ninguém grite, chitom, e haja saúde.