REJEITA SUA ESPOSA O RAMILHETE DE FLORES E O POETA PROSSEGUE NO MESMO GALANTEIO TORNANDO-O A MANDAR COM ESTE.

By Gregório de Matos Guerra

Perdoai-me, meus amores,

do ramilhete a figuinha,

que onde estais vós, vida minha,

uma figa para as flores.

Como assim, Clóri divina,

ramilhete rejeitais?

mas é porque imaginais

ser dele a melhor bonina:

Vede bem, que Amor ensina,

a que vos mande essas flores;

não me negueis os favores,

quando desejo acertar;

e se eu erro em vos amar,

Perdoai-me, meus amores.

Eu, Clóri, tanto que vi,

que o não estimáveis muito,

de que não fizera fruito

pela flor o conheci:

logo me compadeci

da figa por vida minha,

porquanto já certo tinha,

que nesse sol a estalar

era força o acabar

Do ramilhete a figuinha.

Dai-me licença, que diga,

que, a quem dá flores a molhos,

meteis a figa nos olhos

em não aceitar a figa:

porém antes que prossiga,

no que a afeição me encaminha,

digo, se dito não tinha,

sem que seja fora d’arte,

que flor não vi em melhor parte,

Que onde estais vós, vida minha.

Minha Clóri, e meu amor,

esse ramilhete enfim

peço aceiteis, porque assim

lhe ficais levando a flor:

e então vendo-se, Senhor

à vista de tais favores

em mãos tão superiores,

é certo, vendo-lhe a figa,

que não faltará, quem diga,

Uma figa para as flores.