REMETTE AGORA OS SEUS CUYDADOS À MULATA LUZIA, QUE TAMBÉM EMBARAÇADA E DUVIDOSA ...
Parti o bolo, Luzia,
que assim mesmo me acomoda,
não deis a fatia toda,
dai-me parte da fatia:
quem pede, como eu pedia,
pede tudo, o que lhe importa,
e aceita, o que se lhe corta,
e quem dá com manha, ou arte,
seus dados sempre reparte,
se tem mais pobres à porta.
Não é bem, que tudo eu cobre,
e é bem, que um pouco me deis,
dai-me um pouco, alegrar-me-eis,
com pouco se alegra o pobre:
não deis cousa, que me sobre,
dai-me sequer um bocado;
mas o que vos persuado,
que deis com manha, e com arte
dando-vos, e de tal parte,
sempre será grande o dado.
Se a todos cinco sentidos
não tendes cousa, que dar,
dai ao de ver, e apalpar,
os dous sejam preferidos:
não deis que ouvir aos ouvidos,
mas dai aos olhos, que ver,
ao tato, em que se entreter,
deitemos a bom partir
os dous sentidos a rir,
e os demais a padecer.
As mãos folgam de apalpar,
os olhos folgam de ver,
os dous logrem seu prazer,
os três sintam seu pesar:
que depois que isto lograr
virá o mais por seu pé,
que inda que ninguém mo dê,
nem eu o tome a ninguém
morrerá vosso desdém
à força da minha fé.
Dizeis, que quereis tomar
para dar vosso conselho,
quereis conselho de velho?
nunca o tomeis para o dar:
os olhos se hão de fechar
para o dar, e abrir da mão
com razão, ou sem razão,
que os negócios, que se tratam
com conselhos, que dilatam
nunca se conseguirão.
Se conselhos não tomais,
quando alvedrios rendeis,
como conselhos quereis,
quando alvedrios pagais?
Sem conselho me matais,
e dais-me a vida em conselho?
este estilo é já tão velho
na escola da tirania,
que da mais tirana harpia
podereis vós ser espelho.