REMETTE AGORA OS SEUS CUYDADOS À MULATA LUZIA, QUE TAMBÉM EMBARAÇADA E DUVIDOSA ...

By Gregório de Matos Guerra

Parti o bolo, Luzia,

que assim mesmo me acomoda,

não deis a fatia toda,

dai-me parte da fatia:

quem pede, como eu pedia,

pede tudo, o que lhe importa,

e aceita, o que se lhe corta,

e quem dá com manha, ou arte,

seus dados sempre reparte,

se tem mais pobres à porta.

Não é bem, que tudo eu cobre,

e é bem, que um pouco me deis,

dai-me um pouco, alegrar-me-eis,

com pouco se alegra o pobre:

não deis cousa, que me sobre,

dai-me sequer um bocado;

mas o que vos persuado,

que deis com manha, e com arte

dando-vos, e de tal parte,

sempre será grande o dado.

Se a todos cinco sentidos

não tendes cousa, que dar,

dai ao de ver, e apalpar,

os dous sejam preferidos:

não deis que ouvir aos ouvidos,

mas dai aos olhos, que ver,

ao tato, em que se entreter,

deitemos a bom partir

os dous sentidos a rir,

e os demais a padecer.

As mãos folgam de apalpar,

os olhos folgam de ver,

os dous logrem seu prazer,

os três sintam seu pesar:

que depois que isto lograr

virá o mais por seu pé,

que inda que ninguém mo dê,

nem eu o tome a ninguém

morrerá vosso desdém

à força da minha fé.

Dizeis, que quereis tomar

para dar vosso conselho,

quereis conselho de velho?

nunca o tomeis para o dar:

os olhos se hão de fechar

para o dar, e abrir da mão

com razão, ou sem razão,

que os negócios, que se tratam

com conselhos, que dilatam

nunca se conseguirão.

Se conselhos não tomais,

quando alvedrios rendeis,

como conselhos quereis,

quando alvedrios pagais?

Sem conselho me matais,

e dais-me a vida em conselho?

este estilo é já tão velho

na escola da tirania,

que da mais tirana harpia

podereis vós ser espelho.