REMINISCÊNCIAS
Fui há dias rever o sítio nemoroso
Onde tu me juraste amor, presa em meus braços,
E ainda senti pulsar meu coração ansioso
Como outrora escutando o ruído dos teus passos.
A lua, lampejando em lágrimas acesa,
Desfiava em pleno azul o místico rosário,
Difundindo por tudo a agônica tristeza
Que bebera no olhar da Virgem no Calvário.
Todo o jardim estava em flor como o deixamos,
Mas pairava por tudo um grande desconforto.
Horas e horas vaguei sob os floridos ramos
Como Jesus por entre as oliveiras do Horto!
O orvalho, que afogava as brancas açucenas,
Luzia como o pranto em pálpebras humanas,
Os cravos, espalmando as pétalas serenas,
Tinham a cor triunfal das púrpuras romanas.
O jasmineiro abria os flóculos de neve
Como um solto colar de congelados beijos...
Parecia-me ouvir no choro da aura leve
Da tua voz celeste os últimos arpejos!
Do veludo oriental das melindrosas flores,
Da boca juvenil das nacaradas rosas
Subia incensalmente um hálito de olores,
Uma fluida espiral de essências vaporosas.
A rosa do Japão, que, ao léu, estremecia
À brisa mais sutil que um sopro de criança,
Espetada no hastil, sangrando, parecia
Um coração suspenso à ponta de uma lança!
Os eflúvios da noite enchiam-me toda a alma
Como enchem uma igreja as vaporais de incenso.
Havia no mexer de cada móbil palma
As mágoas que no adeus sacode ao longe um lenço...
E atroz recordação dos claros dias idos
— Mar em que o meu batel não encontrava escolhos —
À boca me arrancou gemidos e gemidos,
Fazendo transbordar os lagos dos meus olhos!...
Com que saudade agora, a suspirar, me lembro
Dos beijos que me deste em horas de delírio!
Não te recordas mais? Sorria em flor setembro...
Pobre sonho! não teve a duração de um lírio!