REPETE A QUEYXA INCREPANDO AS CONFIANÇAS DE FR. THOMAZ ONDE O POETA JA TINHA ENT...
Nenhuma Freira me quer
de quantas tem o Desterro,
porque todas são do ferro
de Fr. Burro de Almister:
que me dá do seu querer,
se eu também nenhuma quero:
mas o rostinho severo
de Soror Madama Urtiga,
porque me há de dar fadiga,
se tão rendido o venero.
Que tem Freirinhas tão belas
cos pobres dos seculares,
que a todos lançam azares,
e nunca a sorte cai nelas:
deve de vir das estrelas
de algum signo peçonhento,
que abaixo do firmamento,
onde jaz o Escorpião,
lhos influi um Fradalhão,
que lhes domina o convento.
Alto: vou-me meter Frade
na ordem de Fr. Tomás,
serei perpétuo lambaz
do ralo, da roda, e grade:
mamarei paternidade,
Deo gratias se me dará,
e apenas se me ouvirá
o estrondo do meu tamanco,
quando a Freira sobre o banco
no ralo me aguardará.
Daí para a grade iremos,
e apenas terei entrado,
quando o braço arregaçado
aos ofícios nos poremos:
e quando nos não cheguemos
(porque o não consentirá
a grade, que longe está)
o seu, e o meu coração,
porque vá de mão em mão,
irá na barca da pá.
Pela pá irá o meu zás,
e o seu pela pá virá,
e à força de tanta pá
viveremos sempre em paz:
serei o maior mangaz,
que passou de leigo a demo,
e a Frade, que é mor extremo,
e será por meu sojorno
a pá para ela de forno,
e pá para mim de remo.
Então me virá buscar
a Senhora Dona Urtiga,
Deo gratias, meu Fr. Fustiga,
Deo gratias Sor Rosalgar:
então me hei de pôr a olhar,
e tão grave me hei de pôr,
que quando me diga Amor,
esta é a Freira, que dei,
dir-lhe-ei, já me purguei,
e evacuei esse humor.
A fé Soror Mariana,
que tanto me hei de vingar,
que eu mesmo hei de perguntar
pela Freira soberana:
e há de dizer vossa Mana
(digo Soror Florencinha)
Senhor Doutor, esta é minha
Irmã, a quem você quis,
e hei de dizer-lhe, mentis,
que esta é uma coitadinha.
Não sabeis, Soror Florença
não sabeis diferençar
um Frade de um secular?
pois é esta a diferença:
tendo o leigo a capa imensa
como homem racional
nada lhe parece mal,
toda a Freira é uma flor:
mas em sendo Frei Fedor,
a melhor é um cardal.