REPETE O POETA ESTA ROGATIVA OUVINDO-A EM HUA OCCASIÃO CONTAR COM A SUA SINGULAR...

By Gregório de Matos Guerra

Anica, o que me quereis,

que tanto me enfeitiçais,

uma vez quando cantais,

e outra quando apareceis:

se por matar-me o fazeis,

fazei esse crime atroz

de matar-me sós por sós,

para que eu tenha o socorro,

que vendo, que por vós morro,

viva de morrer por vós.

Matar-me eu o sofrerei,

mas sofrei também chegar-me,

que ter asco de matar-me

jamais o consentirei:

fugir, e matar não sei,

Ana, como o conseguis?

mas se a minha sorte o quis,

e vós Ana, o intentais,

não podeis matar-me mais,

do que quando me fugis.

Chegai, e matai-me já;

mas chegando estou já morto,

causa, que me tem absorto

matar-me, quem não me dá:

chegai, Ana, para cá

para dar-me essa ferida,

porque fugir de corrida,

e matar-me dessa sorte,

se o vejo na minha morte,

o não vi na minha vida.

Não sei, que pós foram estes,

que n’alma me derramastes,

não sei, com que me matastes,

não sei, o que me fizestes:

sei, que aqui aparecestes,

e vendo-vos com antolhos,

topei com tantos abrolhos

na vossa dura conquista,

que me tirastes a vista,

e me quebrastes os olhos.