RESPOSTA A UMA CARTA, QUE EM BOA POESIA CITAVA O AUTOR NOS VERSOS QUE TINHA PROM...

By Nicolau Tolentino de Almeida

A tua polida carta,

Que honrou um poeta raso,

Escrita em pura linguagem,

E assinada no Parnaso;

Da mais injusta ambição

Traz testemunhos fieis;

Possuis grossos tesouros,

E citas-me por dez réis?

Quem do doce Anacreonte

Bebeu o estilo divino,

Quer prostituir seus olhos

Co’as trovas do Tolentino?

Pago, enfim, divida louca;

Mas quem quer pontualidade,

Cuide também em pagar

As dividas da amizade;

Sabes que intento imprimir;

E porque o povo não fuja,

Sábio amigo, emenda, risca,

Põe sabão na roupa suja:

Não te vendo falso incenso;

És juiz da confraria;

Oxalá que altos negócios

Se tratassem em poesia;

A paz, a fugida paz,

Voltara seu alvo colo;

E dera brandos ouvidos

A branda lira de Apolo:

Resiste humana cabeça

Á mais discreta razão;

Mas ao poder da harmonia

Não resiste o coração:

Faze, pois, o que eu te peço;

Que inda que há votos diversos,

Se lhe pões a tua lima,

Quem morderá nos meus versos?

Dá-lhe, depois, teus louvores;

Comprará toda Lisboa,

Se uma vez te ouvir dizer:

“Que comprem, que a obra é boa.”

Farta-me a bolsa; e se queres

Ver também minha alma farta.

Manda riquezas de Atenas

Embrulhadas n’outra carta.