RESPOSTA DO POETA

By Gregório de Matos Guerra

Senhora Dona formosa

li a de vossa mercê

com a cutilada, que

a traz tanto desgostosa.

a ferida é mui danosa,

e não é para cheirada,

traga-a sempre abotoada,

que é, o que mais lhe convém,

pois nunca curou ninguém

junto do cu cutilada.

Vi sarar dez mil feridas,

e muitas tão desestradas,

que por serem bem rasgadas,

lhes chamavam desabridas:

sarar cabeças fendidas,

toda uma cara amassada,

rota uma perna, e escalada,

um braço, e outra cousa assi,

porém sarar nunca vi

junto do cu cutilada.

Causa grande admiração,

como em tal parte a cascou,

só se dormindo a apanhou,

ou estirada no chão:

esta é minha presunção,

que para ali ser cortada

devia estar estirada

com as pernas para o ar,

quando lhe foram cascar

junto do cu cutilada.

Mas se estava conversando

zainamente, e par a par,

deviam de lha cascar

a barriga assovelhando:

que por juntas lhas meter

uma, e outra punhalada

teve a mão tão assentada,

que o contrário resvelando

de muitas veio a fazer

junto do cu cutilada.

Há feridas do diabo,

e de si muito nojentas,

porém as mais fedorentas

são, as que estão junto ao rabo:

eu tal ferida não gabo

por ser em parte arriscada,

que em que seja seringada,

como a parte é tão reimosa,

e sempre mui perigosa

junto do cu cutilada.

Algumas vezes curei

com ovos tão grandalhões,

que pareciam culhões,

mas debalde me cansei:

com mecha lhos encaixei,

que entrava tão ajustada,

que ia algum tanto apertada:

mas era cansar-me em vão,

porque ovos não curam não

junto do cu cutilada.

Toda a ferida se ajunta:

porém esta, que se afasta,

é ferida de má casta,

que mesmo se desconjunta:

o óleo, com que se unta,

tenho por cousa baldada,

que como não é ligada

a cura na parte bem,

não pode sarar também

junto do cu cutilada.

Para se poder curar,

hão de se as pernas abrir:

começando a dividir

como se pode soldar?

também devem reparar,

que vai dentro prefundada,

e se não for seringada,

também pode apodrecer:

pois que remédio há de ter

junto do cu cutilada?

Tenho dito em português,

que se não pode curar,

inda que se esgote amar

porque não falo francês:

a ferida que se fez,

é em tão má parte dada,

que toda a cura é baldada,

e assim digo em conclusão,

que não há, quem cure não

junto do cu cutilada.

Mas eu tenho para mim,

para que dela não morra,

que lhe unte sebo de porra,

ou sumo de parati:

porque já enferma vi

com semelhante golpada

ficar muito consolada,

que a experiência mostrou,

que curar ninguém tratou

junto do cu cutilada.