RETRATA O POETA AS PERFEYÇÕES DESTA DAMA COM GALHARDO ACEYO.
Podeis desafiar com bizarria
Só por só, cara a cara a bela Aurora,
Que a Aurora não só cara vos faria
Vendo tão boa cara em vós, Senhora:
Senhora sois do sol, e luz do dia,
Do dia, que nascestes até agora,
Que se Aurora foi luz por uma estrela,
Duas tendes em vós, a qual mais bela.
Sei, que o sol vos daria o seu tesouro
Pelo negro gentil desse cabelo
Tão belo, que em ser negro foi desdouro
Do sol, que por ser d’ouro foi tão belo:
Bela sois, e sois rica sem ter ouro
Sem ouro haveis ao sol de convencê-lo,
Que se o sol por ter ouro é celebrado,
Sem ter ouro esse negro é adorado.
Vão os olhos, Senhora, estai atento;
Sabeis os vossos olhos o que são?
São de todos os olhos um portento,
Um portento de toda a admiração:
Admiração do sol, e seu contento,
Contento, que me dá consolação,
Consolação, que mata o bom desejo,
Desejo, que me mata, quando os vejo.
A boca para cravo é pequenina,
Pequenina sim é, será rubi,
Rubi não tem a cor tão peregrina,
Tão peregrina cor eu a não vi:
Vi a boca, julguei-a por divina,
Divina não será, eu não o cri:
Mas creio, que não quer a vossa boca
Por rubi, nem por cravo fazer troca.
Ver o aljôfar nevado, que desata,
A Aurora sobre a gala do rosal,
Ver em rasgos de nácar tersa prata,
E pérolas em concha de coral:
Ver diamantes em golpe de escarlata
Em picos de rubi puro cristal,
É ver os vossos dentes de marfim
Por entre os belos lábios de carmim.
No peito desatina o Amor cego
Cego só pelo amor do vosso peito,
Peito, em que o cego Amor não tem sossego,
Só cego por não ver-lhe amor perfeito:
Perfeito, e puro amor em tal emprego
Emprego assemelhando à causa efeito,
Efeito, que é mal feito ao dizer mais,
Quando chega o amor a extremos tais.
Tanto se preza o Amor do vosso amor,
Que mais prazer o tem em amor tanto,
Tanto, que diz o Amor, que outro maior
Não teve por amor, nem por encanto:
Encanto é ver o amor em tal ardor,
Que arde tão bem o peito, por espanto,
Tendo de vivo fogo por sinal
Duas vivas empolas de cristal.
Ao dizer das mãos não me aventuro,
Que a ventura das mãos a tudo mata,
Mata Amor nessas mãos já tão seguro,
Que tudo as mãos lavadas desbarata:
A cuja neve, prata, e cristal puro
Se apurou o cristal, a neve a prata
Belíssimas pirâmides formando
Onde Amor vai as almas sepultando.
Descrever a cintura não me atrevo,
Porque a vejo tão breve, e tão sucinta,
Que em vê-la me suspendo, e me elevo,
por não ver até agora melhor cinta:
Mas porque siga o estilo, que aqui levo,
Digo, que é a vossa cinta tão distinta,
Que o Céu se fez azul de formosura,
Só para cinto ser de tal cintura.
Vamos já para o pé: mas tate-tate,
Que descrever um pé tão peregrino,
Se loucura não é, é desbarate,
Desbarate, que passa o desatino:
A que me desatina, me dá mate
O picante de pé tão pequenino,
Que pé tomar não posso em tal pegada,
Pois é tal vosso pé, que em pontos nada.