RETRATA O POETA AS PERFEYÇÕES DESTA DAMA COM GALHARDO ACEYO.

By Gregório de Matos Guerra

Podeis desafiar com bizarria

Só por só, cara a cara a bela Aurora,

Que a Aurora não só cara vos faria

Vendo tão boa cara em vós, Senhora:

Senhora sois do sol, e luz do dia,

Do dia, que nascestes até agora,

Que se Aurora foi luz por uma estrela,

Duas tendes em vós, a qual mais bela.

Sei, que o sol vos daria o seu tesouro

Pelo negro gentil desse cabelo

Tão belo, que em ser negro foi desdouro

Do sol, que por ser d’ouro foi tão belo:

Bela sois, e sois rica sem ter ouro

Sem ouro haveis ao sol de convencê-lo,

Que se o sol por ter ouro é celebrado,

Sem ter ouro esse negro é adorado.

Vão os olhos, Senhora, estai atento;

Sabeis os vossos olhos o que são?

São de todos os olhos um portento,

Um portento de toda a admiração:

Admiração do sol, e seu contento,

Contento, que me dá consolação,

Consolação, que mata o bom desejo,

Desejo, que me mata, quando os vejo.

A boca para cravo é pequenina,

Pequenina sim é, será rubi,

Rubi não tem a cor tão peregrina,

Tão peregrina cor eu a não vi:

Vi a boca, julguei-a por divina,

Divina não será, eu não o cri:

Mas creio, que não quer a vossa boca

Por rubi, nem por cravo fazer troca.

Ver o aljôfar nevado, que desata,

A Aurora sobre a gala do rosal,

Ver em rasgos de nácar tersa prata,

E pérolas em concha de coral:

Ver diamantes em golpe de escarlata

Em picos de rubi puro cristal,

É ver os vossos dentes de marfim

Por entre os belos lábios de carmim.

No peito desatina o Amor cego

Cego só pelo amor do vosso peito,

Peito, em que o cego Amor não tem sossego,

Só cego por não ver-lhe amor perfeito:

Perfeito, e puro amor em tal emprego

Emprego assemelhando à causa efeito,

Efeito, que é mal feito ao dizer mais,

Quando chega o amor a extremos tais.

Tanto se preza o Amor do vosso amor,

Que mais prazer o tem em amor tanto,

Tanto, que diz o Amor, que outro maior

Não teve por amor, nem por encanto:

Encanto é ver o amor em tal ardor,

Que arde tão bem o peito, por espanto,

Tendo de vivo fogo por sinal

Duas vivas empolas de cristal.

Ao dizer das mãos não me aventuro,

Que a ventura das mãos a tudo mata,

Mata Amor nessas mãos já tão seguro,

Que tudo as mãos lavadas desbarata:

A cuja neve, prata, e cristal puro

Se apurou o cristal, a neve a prata

Belíssimas pirâmides formando

Onde Amor vai as almas sepultando.

Descrever a cintura não me atrevo,

Porque a vejo tão breve, e tão sucinta,

Que em vê-la me suspendo, e me elevo,

por não ver até agora melhor cinta:

Mas porque siga o estilo, que aqui levo,

Digo, que é a vossa cinta tão distinta,

Que o Céu se fez azul de formosura,

Só para cinto ser de tal cintura.

Vamos já para o pé: mas tate-tate,

Que descrever um pé tão peregrino,

Se loucura não é, é desbarate,

Desbarate, que passa o desatino:

A que me desatina, me dá mate

O picante de pé tão pequenino,

Que pé tomar não posso em tal pegada,

Pois é tal vosso pé, que em pontos nada.