RETRATA O POETA COM GRACIOSO MIMO AS MIMOSAS GRAÇAS DESTA DAMA.

By Gregório de Matos Guerra

Olá digo: ó vós Teresa,

que vós sois bizarra em forma,

formosa sem invenção,

e bela sem cerimônia.

Sois linda, como há de ser,

e Brites, que é tão formosa,

será vossa irmã em sangue,

na beleza, são histórias.

O mimo da vossa cara

é tal, que crê, quem a olha,

que as mais ao buril são feitas,

e a vossa vazada em fôrma.

O papinho, que se enxerga

por baixo da barba airosa,

me está dizendo — comei-me,

só vós me dizeis, não coma.

Logo me encolho de medo

talvez, talvez de vergonha,

que um grito na mesa alheia

põe o apetite em cóspias.

Não sei, que diga Teresa,

acerca da vossa boca;

mas que mais posso dizer

depois de dizer, que é vossa?

Sei dizer, que dentro nela

tal riqueza se entesoura,

que não sei, se são diamantes,

se perolas; se outra coisa.

Bem apoda uns brancos dentes,

que a aljôfar os apoda,

e eu fizera o mesmo aos vossos,

mas quando o sonhou aljôfar?

Não sei, que tem vossa cara

de polida, e de mimosa,

que as outras são como as mais,

e a vossa não como as outras.

Quando a vossa cara vejo,

logo me vem à memória,

o melindre do jesmim,

e a natazinha da rosa.

Cuido, que se vem a unha

o carão, que a cara enforma,

e a medo lhe emprego a vista,

porque cuido, que a transtorna.

Não sou basilisco olhando,

mas essa fineza vossa,

como a qualquer unha cai,

a qualquer vista se volta.

Por isso tomara ver-vos

sempre de vidraças posta,

porque vos não ofendera,

quem vos fala, e quem vos olha.

A minha alma então prostrada

diante da imagem vossa,

não só, quem vos ama, víreis,

mas também quem vos adora.

Tal novena vos fizera,

que durara a vida toda,

um penhor da vossa glória,

por ver se vos merecia.