RETRATO DE HUMA DAMA EM METHAFORICAS DOUTRINAS, QUE SE DÃO À UM PAPAGAYO. ESTE F...

By Gregório de Matos Guerra

“Como estais, Louro” diz Fílis

a um Papagaio, que ensina

Louro como este cabelo

onde sempre o ouro brilha.

“Toca, Papagaio, toca.”

Não toco em testa tão linda,

que sem ter pedra de toque,

conheço ser pedra fina.

“Quem passa, Louro quem pa

Passa amor com alegria

por esses arcos triunfantes

feito cego, e cachorrinha.

“Dizei o ré mi fá sol.”

Sempre o sol nessas safiras

com raios anda abrasando,

com frechas tirando vidas.

“Correi, comadre, correi”

vereis rosas, clavelinas,

jasmins, cravos, açucenas,

nesse belo rosto unidas.

“Outro, Papagaio, outro.”

Cousa impossível seria

achar um nariz como esse,

se não for por maravilha.

“Vá, Papagaio real.”

Real é essa boquinha,

a quem Tiro paga grátis

pérolas, e margaritas.

“Para Portugal” dizei.

Para Portugal é dita

ver essa barba engraçada

madrepérola em conchinha.

“Dá comer ao Papagaio.”

Antes eu, Senhora minha,

na neve dessa garganta

com regalo beberia.

“Dai cá o pé, meu Loutinho.”

Isso fora grosseria,

que pusesse eu o meu pé

numas mãos tão cristalinas.

“Corrido vai.” Isso é certo,

que corrido ficaria

quem desse peito quisesse

colher as maçãs tão ricas.

“Tiro lico tico, ré fá.”

Isso são duas cousinhas,

que nos pés andam em breve

só com uma cifra escritas.

Dizei “Tabaréu, réu, réu.”

Manda Amor, que não prossiga,

porque não sou em colon

para descobrir tais índias.

Falou como um Papagaio

o Papagaio este dia:

eu falei como Estorninho,

Fílis qual Pega, ou Corica.