RETRATO DO RICO FEYTIO DE HUM CELEBRE GREGORIO DE NEGREYROS, COM QUEM GRACEJAVA ...

By Gregório de Matos Guerra

Eu vos retrato, Gregório,

desde a cabeça à tamanca

cum pincel esfarrapado

numa pobríssima tábua.

Tão pobre é vossa gadelha,

que nem de lêndeas é farta,

e inda que cheia de anéis,

são anéis de piaçaba.

Vossa cara é tão estreita,

tão faminta, e apertada,

que dá inveja aos Buçacos,

e que entender às Tebaidas.

Tendes dous dedos de testa,

porque da testa a fachada

quis Deus, e a vossa miséria,

que não chegue à polegada.

Os olhos dous ermitães,

que numa lôbrega estância

sempre fazem penitância

nas grutas da vossa cara.

Dous arcos quiseram ser

as sobrancelhas, mas para

os dous arcos se acabarem

até de pêlo houve faltas.

Vosso pai vos amassou,

porém com miséria tanta,

que temeu a natureza,

que algum membro vos faltara.

Deu-vos tão curto o nariz,

que parece uma migalha,

e no tempo dos catarros

para assoar-vos não basta.

Vós devíeis de ser feito

no tempo, em que a lua anda

pobríssima já de luz,

correndo a minguante quarta.

Pareceis homem meminho,

como o meminho da palma,

o mais pequeno na rua,

e o mais pobrezinho em casa.

Vamos aos vossos vestidos,

e pequenos na cassaca

com tento, porque sem tento

a leva qualquer palavra.

Anda tão rota, Senhor,

que tenho por cousa clara,

que no tribunal da Rota

de Roma está sentenciada.

A vossa grande pobreza

para perpétua lembrança

dedico a de Manuel Trapo,

que foi no mundo afamada.