RETRATO QUE FAZ ESTRAVAGANTEMENTE O POETA, AO MESMO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DA CAMARA NA SUA DESPEDIDA.

By Gregório de Matos Guerra

Vá de retrato

por consoantes,

que e eu sou Timantes

de um nariz de tucano

pés de Pato.

Pelo cabelo

começo a obra,

que o tempo sobra

para pintar a giba

do camelo.

Causa-me engulho

o pêlo untado,

que de molhado

parece, que sai sempre

de mergulho.

Não pinto as faltas

dos olhos baios,

que versos raios

nunca foram, senão

a cousas altas.

Mas a fachada

da sobrancelha

se me assemelha

a uma negra vassoura

esparramada.

Nariz de embono

com tal sacada,

que entra na escada

duas horas primeiro

que seu dono.

Nariz, que fala

longe do rosto,

pois na Sé posto

na Praça manda pôr

a guarda em ala.

Membro de olfatos,

mas tão quadrado,

que um Rei coroado

o pode ter por copa

de cem pratos.

Tão temerário

é o tal nariz,

que por um triz

não ficou cantareira

de um armário.

Você perdoe,

nariz nefando,

que eu vou cortando,

e inda fica nariz,

em que se assoe.

Ao pé da altura

no naso oiteiro,

tem o sendeiro,

o que boca nasceu, e é

rasgadura.

Na gargantona

membro do gosto

está composto

o órgão mais sutil

da voz fanchona.

Vamos à giba:

mas eu que intento,

se não sou vento

para poder trepar

lá tanto arriba?

Sempre eu insisto,

que no horizonte

deste alto monte

foi tentar o diabo

A Jesu Cristo.

Chamam-lhe autores,

por falar fresco

dorso burlesco,

no qual fabricaverunt

peccatores.

E havendo apostas,

se é homem, ou fera,

se assentou, que era

um caracol, que traz

a casa às costas.

De grande a riba,

tanto se entona,

que já blasona,

que enjeitou ser canastra

por ser giba.

Ó pico alçado,

quem lá subira,

para que vira,

se és Etna abrasador

se Alpe nevado!

Cousa pintada

sempre uma cousa,

pois onde pousa,

sempre o vêem de bastão

sempre de espada.

Dos santos passos

na bruta cinta

uma cruz pinta

a espada o pau da cruz,

e eles os braços.

Vamos voltando

para a dianteira,

que na traseira

o cu vejo açoutado

por nefando.

Se bem se infere

outro fracasso,

porque em tal caso

só se açouta, quem canta

o miserere.

Pois que seria,

que eu vi vergões?;

serão chupões,

que o bruxo do Ferreira

lhe daria.

Seguem-se as pernas,

sigam-se embora,

porque eu por ora

não me quero embarcar

em tais cavernas.

Se bem, que assento

nos meus miolos

que são dous rolos

de tabaco já podre,

e fedorento.

Os pés são figas

a mor grandeza,

por cuja empresa

tomaram tantos pés

tantas cantigas.

Velha coitada

suja figura,

na arquitetura

da popa de Nau nova

está entalhada.

Boa viagem

senhor Tucano,

que para o ano

vos espera a Bahia

entre a bagagem.