ROMANCE III

By Cláudio Manuel da Costa

Aquele pastor amante,

Que nas úmidas ribeiras

Deste cristalino rio

Guiava as brancas ovelhas;

Aquele, que muitas vezes

Afinando a doce avena,

Parou as ligeiras águas,

Moveu as bárbaras penhas;

Sobre uma rocha sentado

Caladamente se queixa:

Que para formar as vozes,

Teme, que o ar as perceba.

Os olhos levanta, e busca

Desde o tosco assento aquela

Distância, aonde, discorro,

Que tem a origem da pena:

E depois que esmorecidos

Da dor os olhos, na imensa

Explicação do tormento,

Sufocada a luz, se cegam;

Só às lágrimas recorre,

Deixando-se ouvir apenas

Daquelas árvores mudas,

Daquela mimosa relva!

Com torpe aborrecimento

A companhia despreza

Dos pastores, e das ninfas;

Nada quer; tudo o molesta.

Erguido sabre o penhasco

Já vê, se é grande a eminência:

Por que busque o fim da vida,

Na violência de uma queda.

Já louco se precipita;

E já se suspende: a mesma

Apetência do tormento

Maior tormento lhe ordena.

Pastores, vêde a Daliso;

Vede o estado qual seja

De um pastor, que em outro tempo

Glória destes montes era:

Vêde, como sem cuidado

Pastar pelos montes deixa

As ovelhas ofrecidas

As iras de qualquer fera.

Vêde, como desta rama,

Que fúnebre está, suspensa

Deixou a lira, que há pouco,

Pulsava pela floresta.

Vêde, como já não gosta

Da barra, dança, e carreira;

E ao pastoril exercício

De todo já se rebela.

Segundo o volto, que neste

Rústico penedo ostenta,

Cuido, que o fizeram louco

Desprezos da bela Altéia.