ROMANCE IV

By Cláudio Manuel da Costa

Aonde levas, pastora,

Essas tenras ovelhinhas?

Que para seu mal lhes basta

O seres tu, quem as guia.

Acaso vão para o vale,

Ou para a serra vizinha?

Vão acaso para o monte,

Que lá mais distante fica?

Vão porventura, pastora,

A beber as cristalinas,

Doces águas, que discorrem

Por entre estas verdes silvas?

Ah! Quem sabe, triste gado,

Onde a maior homicida

Dos corações, e das almas,

Convosco agora caminha!

Presumir, que cuidadosa

Vos conduz à serra altiva,

Imaginar, que à ribeira

Vos vai levando propícia;

Não o posso, não o posso;

Quando a conjetura avisa,

Que mal as ovelhas guarda;

Quem as almas traz perdidas.

Porém se a vossa ventura

De mais nobre se acredita,

Se podeis vencer de Anarda

A condição sempre esquiva;

Ela vos conduza: os passos

Segui da minha inimiga;

Enquanto para cantá-la

Meu instrumento se afina.

Mais que Títiro suave,

Aqui sentado à sombria

Copa desta verde faia,

Chorarei as penas minhas.

Farei, com que soe o bosque

A seu nome: esta campina,

Vereis, como só de Anarda

A doce glória respira;

Essas árvores, e troncos

Concorrendo à harmonia

Do meu canto, Orfeu nos vales,

Cuidarão, que ressuscita.

Eu repetirei contente

A cantilena, que tinha

Com Alcimedon composto,

Quando no monte vivia.

Direi aquelas cadências,

Que à casca de uma cortiça

Encomendou meu cuidado,

De meu sangue com a tinta.

Pastora (se bem me lembra

Assim meu verso dizia),

Mais branca, que a mesma nove,

Mais bela, do que a bonina;

Eu sou, quem estas ribeiras,

Sou, quem estes campos pisa,

Atrás de uma alma, que roubas,

Tão presa, como rendida.

Não te peco, que ma entregues:

Porque quem ta sacrifica,

De meu voluntário culto

Faz ostentação mais fina:

Quero só, que ma não deixes,

Que a não desampares; inda

Quando de Letes saudoso

Vires a margem sombria.

Mais seguro, e mais constante,

Que aquela mimosa ninfa,

Que no côncavo das penhas,

Por lei do destino, habita.

Eco serei destas rochas,

Aonde os clamores firam

Dos corações, que se queixam,

Das almas, que se lastimam.

Assim, cândidas ovelhas,

Assim clamarei: sozinhas

Correi embora contentes

O vale, o monte, a campina.