ROMANCE
Sábio, e reto Ministro, aquela idéia
Que eu formo desse espírito, alguma hora
Há de chegar a dispensar-se ao mundo,
Inda que em sombras de uma imagem tosca.
Ver-se-á que quanto a mão do Rei Augusto
Mais liberal, mais pródiga vos honra,
Tanto o mérito vosso os mesmos prêmios
Acredita, enobrece, e condecora.
Entregue à vossa direção prudente
Foi o Erário Real; e apenas louva
A fortuna este bem, já vos admira
Cingir no Porto a Senatória Toga.
Estes os louros são que vos prepara
Vossa egrégia virtude, que se de outra
Estranha mão brotassem produzidos,
Não seria a ventagem tão preciosa.
Do Real Decreto as cláusulas, que atendo,
Desta mesma verdade hoje me informam:
Ele nos insinua que os serviços
Com este novo ascenso se coroam.
Outro, que aos cargos do Conselho assiste,
Vigilante Ministro, assim o abona,
Quando nos diz que do interesse régio
Vossa atenção se preocupa toda.
Mas que muito, que o crédito daqueles
Assim vos busque, assim vos corresponda,
Se por vós, ó Ministro esclarecido,
Falam cheias de alento as mesmas obras!
Seguindo os vossos passos, desde quando
Pisais das Minas as montanhas toscas,
Que cousa há que não seja testemunho
Do zelo, que distingue as ações vossas?
Diga-o do Sabará na régia casa,
Onde do Erário se regula a soma,
Aquela perspicácia nunca vista,
Aquela sempre vigilância pronta.
Velando pelo Rei, que segurança
Não têm os seus Direitos! menor sombra
Não pode subsistir no engano indigno,
Da maldade uma vez cerrada a porta.
Este o teatro foi, onde a virtude
Mil padrões erigiu à vossa glória,
Acreditando em diligências graves
Do serviço real vossa pessoa.
Sem temer as distâncias e os perigos
Por ásperos sertões, empresa heróica,
Desde lá vos conduz a ver os matos,
Onde o Paracatu seu termo logra.
Ali provendo em equilíbrio tudo
Quanto acredita da Justiça as normas,
Desprezaste as calúnias, e somente
Deste à verdade a subsistência própria.
Vencidas neste giro (quem tal crera!)
Mais de trezentas léguas, a derrota
Terminais, respirando sem fadiga,
Ao ver que pelo Rei ela se abona.
Não bem cerraste os destinados dias
Do cargo de Intendente, já sem nota,
Que infame à residência, o Rei vos chama,
Já da Fazenda o Tribunal vos goza.
E para seres com maior ornato
Exposto a nossos olhos, vos coloca
Na Junta da Bahia, entre os que a Beca
Distingue, ilustra, qualifica, aprova.
Agora se outro alento me assistira,
Eu descrevera as peregrinas provas
Que fizeste avultar, juntando àquelas
Que a Fama em tanto giro admira absorta.
Eu dera a conhecer que neste emprego
Resplendeceu vossa virtude, posta
No mais distinto grau: dissera ao mundo
Que em vós do Erário se duplica a força.
A força se duplica: pois se aquele
Sustenta o Reino dispendido, a nova,
Interessante economia quanto
O zela mais, é certo, o aumenta, e dobra.
A prática piedosa, bem que inteira,
De uma exação ceder faz a demora
Dos devedores; e arrecada o Cofre
Quanto a avareza em subterfúgios forra.
O excesso das despesas se refreia,
O menos útil se modera e poupa;
O mesmo, que faltava, agora cuido,
Não só não falta já, antes já sobra.
Revolvem-se esquecidos monumentos
Que o tempo sepultava em cinza morta;
E porque tudo ao Régio Erário sirva,
Por eles se entra em recenseio às contas.
Oh! e que frutos deste exame tira
A Fazenda do Rei! quantos se encontram
Erros, e vícios, da maldade efeitos!
Se este se averigua, este se nota.
Nunca das Minas o País dourado
Com tão crescidas, avultadas somas,
Honrando o real selo os cofres, pôde
Ver tão soberba a lusitânia Frota.
Não só do Tribunal junto à fadiga,
Vos aplicais, Senhor, mas vos remonta
Novo cuidado a investigar os passos,
Que abre o extravio por estranhas bocas.
Pela Comarca, aonde os verdes campos
Têm do Sapucaí banhado as ondas,
Atravessais, entregue ao real serviço,
Os sertões, que inda as feras mal povoam.
Os caminhos do engano só trilhados,
Por vós pisados são, por vós se cortam.
Servem ao vosso zelo, ao vosso exame,
O fundo rio, a serra mais medonha.
Nada vos horroriza, nada embarga
A ilustre diligência, bem que aborta
Fúrias o Inverno, cóleras o Tempo,
Rotos os Céus em tempestades grossas.
Vedor Geral, fiada a vosso arbítrio
A comissão da empresa mais custosa,
Com quanta reflexão vos encontramos
Regulando as reclutas para as Tropas!
Atende-se à pobreza, ao desamparo,
Com a clemência a retidão se informa:
A tudo consultais dando os ouvidos
À Viúva, ao Irmão, ao Pai, à Esposa.
Mas que muito, Ministro inimitável,
Que muito obreis assim, se a vossa própria
Língua confessa que ao serviço régio,
Não o interesse, só vos chama a honra!
O amor só da virtude é que dirige
Iguais a vossa idéia as vossas obras,
Conhecendo que é ela de si mesma
O prêmio que mais val, que mais importa.
Por isso inda que ao mérito distinto
Falte a retribuição, só vos consola
Aquela sempre máxima adorável
Que o Pai da Liberdade amava em Roma.
Contenta-se Catão que a estátua sua
No Capitólio entre outras se não ponha,
Porque pergunte absorto o passageiro:
Quem é o que a Catão nega esta glória?
Tendes na fantasia sempre impressas
As imagens do sonho que ainda aponta
De Massinissa a Corte, quando ao Filho
De Cipião se mostra a esfera toda.
Ali se vos descobre que a primeira
Obrigação de um ânimo, que adora
O esplendor da virtude, é que somente
Se ame o seu Rei, a Pátria se socorra.
Daqui vem que é acerto tudo quanto
Imaginais, ou emprendeis; sufoca
A desgraça por vós o seu partido:
Tudo serve ao prazer, tudo à lisonja.
Oh! mil vezes feliz aquele exemplo
Que de vós se deriva! Se estudiosa
A virtude pudera retratar-vos,
Quantas ao mundo repartira cópias!
Nelas ensaiaria para as Becas
Ilustres Magistrados; menos pompa
Trajaram sobre a Fama outros Consultos,
De que o corpo jurídico blasona.
Os Flávios, os Hermógenes, os Élios,
Os Pérsios, os Papírios, os Mendonças,
Os Pegas, os Macedos, os Pereiras
Perderão junto a vós a glória toda.
Vós com justiça igual desempenhando
De sábio o nome, entre virtudes outras,
Sois afável, pacífico, prudente,
Sois liberal, benévolo; isto sobra.
Assim dais a saber que o vosso peito
Alenta aquele sangue, que se adora,
De um Pai, de quem no emprego, que ocupara,
Há de ser imortal sempre a memória.
Assim mostrais que ramo florescente
Sois de um Irmão, que em dotes, em pessoa,
Enobrece do Reino Lusitano
Tudo o que o cetro em seus domínios doura.
Porque entre as perfeições que vos ilustram,
Ainda a mais acidental, concorra,
Até mostrais o quanto a natureza
Se desempenha em vós, quando vos forma.
Cheios de atividade os olhos, dentro
Dos corações, nos dão não sei que mostras
De uma alma dominante: o que vos busca,
Ao respeito, ao agrado igual se dobra.
Mas que debalde a examinar me empenho
Os vossos atributos! Se se agoura
Pelos princípios o progresso, quanto,
Quanto o destino na esperança aponta!
Que comissões, que empresas vos auspica
O fausto lusitano! Ah! cerre embora,
Cerre a porta o futuro, porque a tanto
Não sobe a inculta lira, a Musa rouca.