ROMANCE

By Cláudio Manuel da Costa

Sábio, e reto Ministro, aquela idéia

Que eu formo desse espírito, alguma hora

Há de chegar a dispensar-se ao mundo,

Inda que em sombras de uma imagem tosca.

Ver-se-á que quanto a mão do Rei Augusto

Mais liberal, mais pródiga vos honra,

Tanto o mérito vosso os mesmos prêmios

Acredita, enobrece, e condecora.

Entregue à vossa direção prudente

Foi o Erário Real; e apenas louva

A fortuna este bem, já vos admira

Cingir no Porto a Senatória Toga.

Estes os louros são que vos prepara

Vossa egrégia virtude, que se de outra

Estranha mão brotassem produzidos,

Não seria a ventagem tão preciosa.

Do Real Decreto as cláusulas, que atendo,

Desta mesma verdade hoje me informam:

Ele nos insinua que os serviços

Com este novo ascenso se coroam.

Outro, que aos cargos do Conselho assiste,

Vigilante Ministro, assim o abona,

Quando nos diz que do interesse régio

Vossa atenção se preocupa toda.

Mas que muito, que o crédito daqueles

Assim vos busque, assim vos corresponda,

Se por vós, ó Ministro esclarecido,

Falam cheias de alento as mesmas obras!

Seguindo os vossos passos, desde quando

Pisais das Minas as montanhas toscas,

Que cousa há que não seja testemunho

Do zelo, que distingue as ações vossas?

Diga-o do Sabará na régia casa,

Onde do Erário se regula a soma,

Aquela perspicácia nunca vista,

Aquela sempre vigilância pronta.

Velando pelo Rei, que segurança

Não têm os seus Direitos! menor sombra

Não pode subsistir no engano indigno,

Da maldade uma vez cerrada a porta.

Este o teatro foi, onde a virtude

Mil padrões erigiu à vossa glória,

Acreditando em diligências graves

Do serviço real vossa pessoa.

Sem temer as distâncias e os perigos

Por ásperos sertões, empresa heróica,

Desde lá vos conduz a ver os matos,

Onde o Paracatu seu termo logra.

Ali provendo em equilíbrio tudo

Quanto acredita da Justiça as normas,

Desprezaste as calúnias, e somente

Deste à verdade a subsistência própria.

Vencidas neste giro (quem tal crera!)

Mais de trezentas léguas, a derrota

Terminais, respirando sem fadiga,

Ao ver que pelo Rei ela se abona.

Não bem cerraste os destinados dias

Do cargo de Intendente, já sem nota,

Que infame à residência, o Rei vos chama,

Já da Fazenda o Tribunal vos goza.

E para seres com maior ornato

Exposto a nossos olhos, vos coloca

Na Junta da Bahia, entre os que a Beca

Distingue, ilustra, qualifica, aprova.

Agora se outro alento me assistira,

Eu descrevera as peregrinas provas

Que fizeste avultar, juntando àquelas

Que a Fama em tanto giro admira absorta.

Eu dera a conhecer que neste emprego

Resplendeceu vossa virtude, posta

No mais distinto grau: dissera ao mundo

Que em vós do Erário se duplica a força.

A força se duplica: pois se aquele

Sustenta o Reino dispendido, a nova,

Interessante economia quanto

O zela mais, é certo, o aumenta, e dobra.

A prática piedosa, bem que inteira,

De uma exação ceder faz a demora

Dos devedores; e arrecada o Cofre

Quanto a avareza em subterfúgios forra.

O excesso das despesas se refreia,

O menos útil se modera e poupa;

O mesmo, que faltava, agora cuido,

Não só não falta já, antes já sobra.

Revolvem-se esquecidos monumentos

Que o tempo sepultava em cinza morta;

E porque tudo ao Régio Erário sirva,

Por eles se entra em recenseio às contas.

Oh! e que frutos deste exame tira

A Fazenda do Rei! quantos se encontram

Erros, e vícios, da maldade efeitos!

Se este se averigua, este se nota.

Nunca das Minas o País dourado

Com tão crescidas, avultadas somas,

Honrando o real selo os cofres, pôde

Ver tão soberba a lusitânia Frota.

Não só do Tribunal junto à fadiga,

Vos aplicais, Senhor, mas vos remonta

Novo cuidado a investigar os passos,

Que abre o extravio por estranhas bocas.

Pela Comarca, aonde os verdes campos

Têm do Sapucaí banhado as ondas,

Atravessais, entregue ao real serviço,

Os sertões, que inda as feras mal povoam.

Os caminhos do engano só trilhados,

Por vós pisados são, por vós se cortam.

Servem ao vosso zelo, ao vosso exame,

O fundo rio, a serra mais medonha.

Nada vos horroriza, nada embarga

A ilustre diligência, bem que aborta

Fúrias o Inverno, cóleras o Tempo,

Rotos os Céus em tempestades grossas.

Vedor Geral, fiada a vosso arbítrio

A comissão da empresa mais custosa,

Com quanta reflexão vos encontramos

Regulando as reclutas para as Tropas!

Atende-se à pobreza, ao desamparo,

Com a clemência a retidão se informa:

A tudo consultais dando os ouvidos

À Viúva, ao Irmão, ao Pai, à Esposa.

Mas que muito, Ministro inimitável,

Que muito obreis assim, se a vossa própria

Língua confessa que ao serviço régio,

Não o interesse, só vos chama a honra!

O amor só da virtude é que dirige

Iguais a vossa idéia as vossas obras,

Conhecendo que é ela de si mesma

O prêmio que mais val, que mais importa.

Por isso inda que ao mérito distinto

Falte a retribuição, só vos consola

Aquela sempre máxima adorável

Que o Pai da Liberdade amava em Roma.

Contenta-se Catão que a estátua sua

No Capitólio entre outras se não ponha,

Porque pergunte absorto o passageiro:

Quem é o que a Catão nega esta glória?

Tendes na fantasia sempre impressas

As imagens do sonho que ainda aponta

De Massinissa a Corte, quando ao Filho

De Cipião se mostra a esfera toda.

Ali se vos descobre que a primeira

Obrigação de um ânimo, que adora

O esplendor da virtude, é que somente

Se ame o seu Rei, a Pátria se socorra.

Daqui vem que é acerto tudo quanto

Imaginais, ou emprendeis; sufoca

A desgraça por vós o seu partido:

Tudo serve ao prazer, tudo à lisonja.

Oh! mil vezes feliz aquele exemplo

Que de vós se deriva! Se estudiosa

A virtude pudera retratar-vos,

Quantas ao mundo repartira cópias!

Nelas ensaiaria para as Becas

Ilustres Magistrados; menos pompa

Trajaram sobre a Fama outros Consultos,

De que o corpo jurídico blasona.

Os Flávios, os Hermógenes, os Élios,

Os Pérsios, os Papírios, os Mendonças,

Os Pegas, os Macedos, os Pereiras

Perderão junto a vós a glória toda.

Vós com justiça igual desempenhando

De sábio o nome, entre virtudes outras,

Sois afável, pacífico, prudente,

Sois liberal, benévolo; isto sobra.

Assim dais a saber que o vosso peito

Alenta aquele sangue, que se adora,

De um Pai, de quem no emprego, que ocupara,

Há de ser imortal sempre a memória.

Assim mostrais que ramo florescente

Sois de um Irmão, que em dotes, em pessoa,

Enobrece do Reino Lusitano

Tudo o que o cetro em seus domínios doura.

Porque entre as perfeições que vos ilustram,

Ainda a mais acidental, concorra,

Até mostrais o quanto a natureza

Se desempenha em vós, quando vos forma.

Cheios de atividade os olhos, dentro

Dos corações, nos dão não sei que mostras

De uma alma dominante: o que vos busca,

Ao respeito, ao agrado igual se dobra.

Mas que debalde a examinar me empenho

Os vossos atributos! Se se agoura

Pelos princípios o progresso, quanto,

Quanto o destino na esperança aponta!

Que comissões, que empresas vos auspica

O fausto lusitano! Ah! cerre embora,

Cerre a porta o futuro, porque a tanto

Não sobe a inculta lira, a Musa rouca.