SÓ
Avança lentamente ó préstito da Noite,
A treva ondula desdobrando véus mortuários.
A rajada, que vibra o sibilante açoite,
Povoa o espaço de soluços funerários.
Preso na escuridão deste aposento mudo,
Escuto vozes funerais, prantos doridos...
Como sofro! Minh’alma é um lírio de veludo
Que se desfolha em melancólicos gemidos!
Às vezes, como um ai de sangue, de repente
Surge, entre nuvens, a verônica da lua,
E, entre névoas, de pronto, oculta o disco algente,
Da extrema réstia recolhendo a espada nua.
Que frio siberiano as carnes me congela!
Que sorte hedionda me encarcera e me acorrenta
Neste exílio feral onde essa imagem bela
Não me sorri, não me conforta, não me alenta!
Quanto me dói ouvir o flébil murmurinho
Das casuarinas, num assalto de desejo,
Sem ti, sem teu amor, sem teu olhar, sozinho,
Sem teu calor, sem teu perfume, sem teus beijos!
Quem me dera, no horror desta noite de julho,
Ver-te ao meu lado, como outrora, suave e langue,
Com brados de alegria abafando o marulho
Dos vagalhões atropelados do meu sangue!
Quem me dera cingir-te o corpo alabastrino
De ninfa grega com as algemas dos meus braços,
E da boca arrancar-te um cântico divino
Pedindo beijos, suplicando mais abraços!
Ah! se eu pudesse, haurindo o teu aroma ebriante,
Colher um lírio no jardim desse alvo colo,
E enrolar-me no véu do teu cabelo ondeante
Como no linho dos lençóis que me enrolo!...
Mas preciso calar o coração que chora,
Porque estás longe, em terra estranha, em outro clima...
Como é triste sonhar nas trevas com a aurora!
Que desventura pode haver que mais oprima?
E a Noite, que caminha, estuda o passo aéreo,
E a névoa cresce, e o vento ulula, e o frio corta,
Enquanto eu abro nalma — eterno cemitério —
A sepultura da esperança há muito morta!...