SACODE A OUTROS, QUE PECCAVÃO NA PRESUNÇÃO, E ATREVIMENTO INDIGNO.

By Gregório de Matos Guerra

Um vendelhão baixo, e vil

de cornos pôs uma tenda,

e confiado, em que os venda,

corre por todo o Brasil:

para mim de tantos mil

lhe mandei, que me guardasse,

se verdade não falasse

em sobrosso, e com sojorno:

Um corno.

Para o Alcaide ladrão

com despejo, e com temor,

que na mão leva o Doutor,

na barriga a Relação:

indo à casa de um Sansão

entra audaz, e confiado,

e faz penhora no estado

da mulher, e seu adornos:

dois cornos.

Para o escrivão falsário,

que sem chegar-lhe à pousada,

dando a parte por citada,

dá fé, e cobra o salário:

e sendo o feito ordinário,

como corre à revelia,

sai a sentença num dia

mais amarga que piornos:

três cornos.

Para o Julgador Orate

ignorante, e fanfarrão,

que sendo Conde de Unhão,

já quer ser Marquês de Unhate:

e por qualquer dou-te, ou dá-te

resolve do invés um feito

e assola a torto, e direito

a cidade, e seus contornos:

quatro cornos.

Para o Judas Macabeu,

que porque na tribo estriba,

foi de Capitão a Escriba,

e de Escriba a Fariseu:

pois no ofício se meteu

a efeito só de comer,

sufrágios, que em vez de os ter,

quer antes arder em fornos:

cinco cornos.

Para o bêbado mestiço,

e fidalgo atravessado,

que tendo o pernil tostado,

cuida, que é branco castiço:

e de flatos enfermiço

se ataca de jeribita,

crendo, que os flatos lhe quita,

quando os vomita em retornos:

seis cornos.

Para o Cônego observante

todo o dia. e toda a hora,

cuja carne é pecadora

das completas por diante:

cara de disciplinante,

queixadas de penitente,

e qualquer jimbo corrente

serve para seus subornos:

sete cornos.

Para as Damas da Cidade

Brancas, Mulatas, e Pretas,

que com sortílegas tretas

roubam toda a liberdade:

e equivocando a verdade

dizem, que são um feitiço,

não o tendo em o cortiço

tanto como caldos mornos:

oito cornos.

Para o Frade confessor,

que ouvindo um pecado horrendo

se vai pasmado benzendo,

fugindo do pecador:

e sendo talvez pior

do que eu, não quer absolver-me,

talvez porque inveja ver-me

com tão torpes desadornos:

nove cornos.

Para o Pregador horrendo,

que a Igreja esturgindo a gritos,

nem ele entende os seus ditos,

nem eu também os entendo:

e a vida, que está vivendo,

é lá por outra medida,

e a mim me giza uma vida

mais amarga, que piornos:

dez cornos.

Para o Santo da Bahia,

que murmura do meu verso,

sendo ele tão perverso,

que a saber fazer faria:

e quando a minha Talia

lhe chega às mãos, e ouvidos

faz na cidade alaridos,

e vai gostá-la aos contornos:

mil cornos.