SANTIGUA-SE O POETA CONTRA OUTROS PATARATAS AVARENTOS, INJUSTOS, HYPOCRITAS, MUR...

By Gregório de Matos Guerra

Destes, que campam no mundo

sem ter engenho profundo,

e entre gabos dos amigos

os vemos em papa-figos

sem tempestade, nem vento:

Anjo Bento.

De quem com Letras secretas

tudo, o que alcança é por tretas,

baculejando sem pejo

por matar o seu desejo

dês de manhã até a tarde:

Deus me guarde.

Do que passeia farfante

muito prezado de amante,

por fora luvas, galões,

insígnias, armas, bastões,

por dentro pão bolorento:

Anjo Bento.

Destes beatos fingidos

cabisbaixos, encolhidos,

por dentro fatais maganos,

sendo nas caras uns Janos,

que fazem do vício alarde:

Deus me guarde.

Que vejamos teso andar,

quem mal sabe engatinhar,

mui inteiro, e presumido,

ficando o outro abatido

com maior merecimento:

Anjo Bento.

Destes avaros mofinos,

que põem na mesa pepinos

de toda a iguaria isenta,

com seu limão, e pimenta,

porque diz que queima, e arde:

Deus me guarde.

Que pregue um douto sermão

um alarve, um asneirão,

e que esgrima em demasia,

quem nunca já na Sofia

soube pôr um argumento:

Anjo Bento.

Deste Santo emascarado,

que fala do meu pecado,

e se tem por Santo Antônio,

mas em lutas co demônio

se mostra sempre cobarde:

Deus me guarde.

Que atropelando a justiça

só com virtude postiça

se premie o delinquente,

castigando o inocente

por um leve pensamento:

Anjo Bento.