SANTIGUA-SE O POETA CONTRA OUTROS PATARATAS AVARENTOS, INJUSTOS, HYPOCRITAS, MUR...
Destes, que campam no mundo
sem ter engenho profundo,
e entre gabos dos amigos
os vemos em papa-figos
sem tempestade, nem vento:
Anjo Bento.
De quem com Letras secretas
tudo, o que alcança é por tretas,
baculejando sem pejo
por matar o seu desejo
dês de manhã até a tarde:
Deus me guarde.
Do que passeia farfante
muito prezado de amante,
por fora luvas, galões,
insígnias, armas, bastões,
por dentro pão bolorento:
Anjo Bento.
Destes beatos fingidos
cabisbaixos, encolhidos,
por dentro fatais maganos,
sendo nas caras uns Janos,
que fazem do vício alarde:
Deus me guarde.
Que vejamos teso andar,
quem mal sabe engatinhar,
mui inteiro, e presumido,
ficando o outro abatido
com maior merecimento:
Anjo Bento.
Destes avaros mofinos,
que põem na mesa pepinos
de toda a iguaria isenta,
com seu limão, e pimenta,
porque diz que queima, e arde:
Deus me guarde.
Que pregue um douto sermão
um alarve, um asneirão,
e que esgrima em demasia,
quem nunca já na Sofia
soube pôr um argumento:
Anjo Bento.
Deste Santo emascarado,
que fala do meu pecado,
e se tem por Santo Antônio,
mas em lutas co demônio
se mostra sempre cobarde:
Deus me guarde.
Que atropelando a justiça
só com virtude postiça
se premie o delinquente,
castigando o inocente
por um leve pensamento:
Anjo Bento.