Sapo humano

By João da Cruz e Sousa

Oh sapo! eu vou cantar tuas misérias, sapo,

Vou tirar, nesse lodo onde habitas de rastros,

Umas vivas canções do teu nojento papo,

Da crosta esverdeada umas centelhas de astros.

E canções de tal forma e tais e tais centelhas,

Que todas possam ir, miraculosamente,

Transformadas, pelo ar, em rútilas abelhas

Com o íris voador de cada asa fulgente.

Que tu, tredo animal, tu, triste sapo hediondo,

Não és o vil, o torpe, o irracional, que a lama

Em camadas envolve o atro ventre redondo,

Dos tempos imortais nessa fecunda chama.

Não és o sapo histrião de imundas esterqueiras,

O sombrio Caim nos lamaçais errantes,

O clown gargalhador das charnecas rasteiras,

Que ri-se para o sol com riso ironizante.

Não és o sapo atroz, coaxador, visguento,

Que rouco ruge e raiva a noite os seus horrores,

E para o constelado e mudo firmamento

Faz ecoar os mais surdos e ásperos tambores.

Mas és o sapo humano, esse asqueroso e feio,

Nascido de roldão na lúgubre miséria

E que do mundo vão no pavoroso seio

Lembra o negro sarcasmo enorme da Matéria.

Mas és o sapo humano, o sapo mais abjeto

Do crime aterrador, do tenebroso vício

Mas que ainda possuis o brilho de um afeto

Que te livra, talvez, do eterno precipício.

Por ora na tua alma a noite cruel, cerrada,

Não caiu de uma vez, como terrível fora.

Nela ainda há clarões de límpida alvorada,

Um prenúncio feliz de aurora redentora.

Ainda tens coração que pulsa no teu peito

Por uns filhos gentis, ingênuos, pequeninos,

Que são o grande amor, o sentimento eleito

Vencendo esses fatais instintos assassinos.

Tu semelhas de um charco a superfície nua

E vítrea, que no campo, aos ares, adormece,

Que se em cheio lhe bate a luz do sol, da lua,

Para a vasta amplidão cintila e resplandece.

Pois no teu organismo, assim sinistro e torvo,

Repleto de vibriões do vício — essas crianças,

Sorriem virginais, oh! solitário corvo,

Com sorrisos de luzes e barcarolas mansas.

O amor que regenera os ínfimos bandidos,

Não reduziu, enfim, tu’alma a ignóbil trapo.

E eis por que, num viver de pântano e gemidos,

Cantam dentro de ti aves e estrelas, sapo!