SÁTIRA
Poetas têm recebido
A lira de cordas d’ouro,
Com que Apolo intonso e louro
Os protege e mimoseia;
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja
Que não se veja
Sem ter vintém.
Nasão, mestre dos amores,
Certo, de Roma gozara
Se o erro o não despenhara
Nos abismos da desgraça;
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém.
Ergo excelso monumento
Mais que o bronze permanente;
Não morrerei totalmente,
Disse o coronel Horácio;
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém.
Sublime poema heroico,
Que ao Troiano diviniza,
A Virgílio imortaliza
Como ao príncipe do metro;
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém.
Na posse dos bens terrestres
O ditoso Mantuano
Pudera dizer ufano
Deus nobis haec otia fecit;
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém.
Faz presente de um — perum —
O jovial Tolentino,
E conta como ladino
Ganha nisto com usura;
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém.
Que zoilos estremecessem
O grande Elmano bradava,
Porque Filinto prezava
Versos que Elmano fazia;
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém.
“Tenho os dotes da ventura;
Dou graças, Marília bela,
Dou graças à minha estrela,
São palavras de Dirceu.
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém
O Brasil e Portugal
Com todo o empenho contendem,
E solícitos pretendem
Ser o berço de Gonzaga;
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém
A previsão de Ferreira,
Luso poeta distinto,
Pela boca de Filinto
Se tomou realidade,
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém
— De Camões inimitável
Onde jaz o moimento?! —
Novo cantor de talento
Se o pergunta, assim o erige.
Porém, porém
O ser poeta,
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Que não se veja
Sem ter vintém.
Grasnem de Bávios e Mévios
Centenas e mais centenas,
Que é bastante um só Mecenas,
Na presença de um Augusto.
Porém, porém
O ser poeta
É ser pateta,
Pois não há quem
Poeta seja,
Quem não se veja
Sem ter vintém.