SÁTIRA

By José Joaquim Correia de Almeida

Poetas têm recebido

A lira de cordas d’ouro,

Com que Apolo intonso e louro

Os protege e mimoseia;

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja

Que não se veja

Sem ter vintém.

Nasão, mestre dos amores,

Certo, de Roma gozara

Se o erro o não despenhara

Nos abismos da desgraça;

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém.

Ergo excelso monumento

Mais que o bronze permanente;

Não morrerei totalmente,

Disse o coronel Horácio;

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém.

Sublime poema heroico,

Que ao Troiano diviniza,

A Virgílio imortaliza

Como ao príncipe do metro;

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém.

Na posse dos bens terrestres

O ditoso Mantuano

Pudera dizer ufano

Deus nobis haec otia fecit;

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém.

Faz presente de um — perum —

O jovial Tolentino,

E conta como ladino

Ganha nisto com usura;

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém.

Que zoilos estremecessem

O grande Elmano bradava,

Porque Filinto prezava

Versos que Elmano fazia;

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém.

“Tenho os dotes da ventura;

Dou graças, Marília bela,

Dou graças à minha estrela,

São palavras de Dirceu.

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém

O Brasil e Portugal

Com todo o empenho contendem,

E solícitos pretendem

Ser o berço de Gonzaga;

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém

A previsão de Ferreira,

Luso poeta distinto,

Pela boca de Filinto

Se tomou realidade,

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém

— De Camões inimitável

Onde jaz o moimento?! —

Novo cantor de talento

Se o pergunta, assim o erige.

Porém, porém

O ser poeta,

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Que não se veja

Sem ter vintém.

Grasnem de Bávios e Mévios

Centenas e mais centenas,

Que é bastante um só Mecenas,

Na presença de um Augusto.

Porém, porém

O ser poeta

É ser pateta,

Pois não há quem

Poeta seja,

Quem não se veja

Sem ter vintém.