SÁTIRA, A POLCA

By José Joaquim Correia de Almeida

Qualquer ação hoje em dia,

Que entre nós tenha lugar,

Sej’útil ou de agradar,

Seja boa como for,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Muito embora se afadigue

Na colheita e plantação

Do milho, arroz, e feijão

Diligente lavrador,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Manobre com todo o acerto

A torquês e o puxavante

Robustíssimo pulsante

E expedito ferrador,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Seja firme no compasso,

Siga as leis da melodia,

E os preceitos da harmonia

O menestrel de primor,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Suba ao púlpito sagrado

O retórico profundo,

E dê nova luz ao mundo

Instruído pregador,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Tenha o liceu muito embora

Os professores e lentes,

Sábios doutos e prudentes,

E tenha austero reitor,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Dos objetos pitorescos

Com seu lápis ou pincel

Deduza cópia fiel

O desenhista pintor,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Seja liso em transações,

Tenha sempre um só dizer

No comprar e no vender

O sincero mercador,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Elabore pela pátria

Lei que seja apropriada,

E ao país acomodada

Prudente legislador,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Com todo o esforço proteja,

Empregue todo o cuidado

No inocente tutelado

Justo e honesto curador,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Dispare o tiro seguro

Contra alígera perdiz,

Ou alada codorniz

O certeiro caçador,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Ou habilmente pratique

A moderna homeopatia,

Ou antiga alopatia

Esculápico doutor,

Não sendo à polca,

Perde o valor.

Na Paróquia tenha embora

A residência formal,

Além da material

O católico Pastor,

Não sendo à polca,

Perde o valor.