SÁTIRA, A POLCA
Qualquer ação hoje em dia,
Que entre nós tenha lugar,
Sej’útil ou de agradar,
Seja boa como for,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Muito embora se afadigue
Na colheita e plantação
Do milho, arroz, e feijão
Diligente lavrador,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Manobre com todo o acerto
A torquês e o puxavante
Robustíssimo pulsante
E expedito ferrador,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Seja firme no compasso,
Siga as leis da melodia,
E os preceitos da harmonia
O menestrel de primor,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Suba ao púlpito sagrado
O retórico profundo,
E dê nova luz ao mundo
Instruído pregador,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Tenha o liceu muito embora
Os professores e lentes,
Sábios doutos e prudentes,
E tenha austero reitor,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Dos objetos pitorescos
Com seu lápis ou pincel
Deduza cópia fiel
O desenhista pintor,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Seja liso em transações,
Tenha sempre um só dizer
No comprar e no vender
O sincero mercador,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Elabore pela pátria
Lei que seja apropriada,
E ao país acomodada
Prudente legislador,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Com todo o esforço proteja,
Empregue todo o cuidado
No inocente tutelado
Justo e honesto curador,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Dispare o tiro seguro
Contra alígera perdiz,
Ou alada codorniz
O certeiro caçador,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Ou habilmente pratique
A moderna homeopatia,
Ou antiga alopatia
Esculápico doutor,
Não sendo à polca,
Perde o valor.
Na Paróquia tenha embora
A residência formal,
Além da material
O católico Pastor,
Não sendo à polca,
Perde o valor.