SÁTIRA, OFERECIDA A D. MARTINHO DE ALMEIDA, NO ANO DE 1779

By Nicolau Tolentino de Almeida

A vós, que favor me dais,

Ilustre e sábio Martinho,

Que meu fraco engenho alçais;

E das letras o caminho

Dentro d’elas me mostrais:

Homem são e sem reserva.

Que pondes sangue de parte,

Que vãos respeitos conserva;

Nutrido aos braços de Marte

Com o leite de Minerva:

Vosso servo hoje se atreve

A mandar em má poesia

Bons desejos que ter deve;

Que tenhais paz e alegria.

Mais que o triste, que isto escreve:

Que nessas vastas campinas,

Que assombram ermos outeiros,

Vivais horas mais benignas.

Livre de duros banqueiros.

Livre de ingratas Nerinas:

Em boa tarde mandai;

Farpear bravo novilho.

Com o conde passeai;

Ide adoçando c’o filho

Justas saudades do pai:

Ensinai-lhe altas verdades.

Aos vossos olhos patentes;

Mostrai-lhe nessas herdades

Os prazeres inocentes.

Que fugiram das cidades:

Que ame a pura singeleza,

De que os campos são figura;

Que não se fie em grandeza,

Que uma é obra da ventura,

Ê a outra, da natureza:

Mas voltando a nós a mão,

Vós, filósofo profundo,

Que conversais com Platão,

Vede se lhe achais um mundo,

Que nos encha o coração:

Que este em que estamos, senhor,

Sempre surdo a sãos conselhos,

Volve a roda a seu sabor;

E dizem pilotos velhos,

Que vai de mal a pior;

Quantas vezes nós falíamos

Sobre a sua natureza?

Quantas mazelas lhe achamos?

Porém temos a fraqueza

De amar o que condenamos:

O bom Demócrito ria

Do que a nós nos causa dor;

Ele mui bem o entendia;

Vamos nós também, senhor.

Fazer o que ele fazia:

Dos homens na vã loucura

Um pouco meditaremos;

E com alquimia segura,

Do mal alheio faremos

Para o nosso mal a cura:

Quando vierdes, então

Correremos a cidade;

Uns que vem, e outros que vão;

Acharemos à vontade

Onde metíamos a mão:

Veremos o vão paralta

Calcando importuna lama,

Que as alvas meias lhe esmalta,

Na esteira de esquiva dama,

Que de pedra em pedra salta:

Aos cafés iremos vê-lo

No mostrador encostado

Sobre o curvo cotovelo

Tendo à esquerda sobraçado

Gigante chapéu de pelo:

Ali em regras de dança,

Com outros tais conversando,

Dirá que desde criança

Andou sempre viajando,

Que viu Londres, que viu França;

Que gastou grossos dinheiros;

Pois ver com sossego quis

Cidades, reinos inteiros;

Jura que como em Paris

Nunca achou cabeleireiros:

Exalta os molhos franceses

Dos banquetes que lhe deram;

E balbuciará ás vezes,

Fingindo que lhe esqueceram

Muitos termos portugueses:

Chamará à pátria ingrata;

Murmurará do governo.

Que do bom gosto não trata,

E consente que de inverno

Haja fivelas de prata:

Em dois minutos emenda

O mundo que vai perdido;

E quer que com ele aprenda

Em que quadra, e em que vestido

São próprios punhos de renda:

Carregando a sobrancelha,

A falar na história salta;

E logo da França velha

Reconta o pobre paralta

Cousas que pescou de orelha:

Faz ao bom Suli justiça,

Que os fios da espada embota

Ao rei, que em furor se atiça;

E não lhe esquece a anedota,

“Que um reino vale uma missa”

Falia em São Bartolomeu

E quase que as gotas conta

Do sangue que então correu;

E ao certo as folhas aponta

Da história que nunca leu:

Riremos do seu estudo;

Porque só o tem mostrado

Em ter chapéu gadelhudo

Em ter canhão cerceado,

E em pôr de mais um canudo.

Iremos ouvir mil petas.

Quando mais o sol se empina,

Vendo acérrimos jarretas,

Junto a Santa Catarina,

Argumentando em gazetas:

Um quer a cabeça dar,

Se o conde de Estaing não fez

Trinta naus desarvorar;

Outro levanta em um mês

O cerco de Gibraltar:

Um, riscando a terra, ensina

Co’a bengala a geografia;

E nos diz com quem confina

Ao poente e ao melodia

A Geórgia e a Carolina:

Outro aos ingleses deseja

Na armada o fogo ateado;

E pinta em crua peleja

Dez lordes fugindo a nado

Sobre barris de cerveja:

Outro conta os graves danos

Que esta gazeta declara

Tiveram os castelhanos;

E o triunfo inglês compara

C’os triunfos dos romanos:

Ao seu partido se aferra;

Diz que inda c’os mastos rotos

Ao mundo farão a guerra;

Mas fica vencido em votos,

E leva a breca a Inglaterra:

Dão ao leão furibundo

Gibraltar em justa guerra;

E este concílio profundo,

Sem ter um palmo de terra,

Está repartindo o mundo:

Dado enfim o inglês à sola,

Qualquer dos ditos confrades

Na rota capa se enrola;

E tendo dado cidades,

Nos vem pedir uma esmola:

D’ali, senhor, voltaremos

Pelas praças principais;

Que belas cousas veremos!

Que famosos editais

Pelas esquinas leremos!

“Chegou monsieur de tal,

Químico em Paris formado;

Traz segredo especial;

Um elixir aprovado,

Um remédio universal:

“Não pretende ajuntar fundo

C’os grandes segredos seus;

E cheio de dó profundo,

Tira pelo amor de Deus

Os dentes a lodo o mundo”:

Iremos ler no outro lado,

Onde acaso os olhos pus:

“Em quarto grande, e estampado

Saiu novamente à luz

Carlos Magno comentado”:

“Na mesma loja hão de achar:

As Obras de Caldeirão,

Que em bom preço se hão de dar;

E o Cavalheiro Cristão,

E as Regras de Partejar”.

D’estas ridicularias,

E de outras tais murmurando

Co’as nossas filosofias,

A tarde iremos gastando

Té que deem Ave-Marias:

Então já quando em cardume

Sai gente da Fundição,

Como sabeis que é costume,

E já as vizinhas vão

Pedir ás vizinhas lume:

Quando a dama requestada

Um vulto na esquina vê,

E diz à fiel criada,

Que desça pé ante-pé,

E tome o escrito na escada:

Quando todo o ginja rico

Para casa a proa inclina,

Por temer facas de bico;

E cuida que a cada esquina

Lhe lança mão o Joânico:

Então, meu senhor, teremos

Função de mais alto preço;

A certa assembléia iremos

De uma gente que eu conheço,

Onde à vontade riremos:

Feita a geral cortesia,

Pé atrás, segundo a moda,

Daremos à mãe e à tia,

E depois a toda a roda,

Alto e maio senhoria:

A mãe, já dragão formal,

Espelho de desenganos,

E que, por seu grande mal,

Há já mais de vinte anos,

Que guarda a fé conjugal;

Posta de roda no centro.

Cruza a perna, mestra abelha;

E de longe a ver-lhe eu entro

Sapatos de seda velha.

Bicos de pés para dentro:

A tia, séria mulher,

Que os longos vestidos seus

Ao Carmo manda fazer;

E d’estas que dão a Deus

O que o mundo já não quer;

Sente um desgosto infinito.

Que o mundo a deixe tão cedo;

Afeta místico esp’rito;

Porém suspira em segredo

Pelas cebolas do Egito:

L’abbé, que encurta as batinas,

Por mostrar bordadas meias,

E presidindo em matinas,

Vai depois ás assembléias

Cantar modas co’as meninas;

É quem lhe rouba atenções,

E lhe acende um fogo interno,

Trata-o com mil expressões;

Diz-lhe quanto há de mais terno

Nos seus livros de orações:

Riremos do tal dragão,

Que tantas figuras faz;

E sabe, com hábil mão,

Unir em profunda paz

Babilônia com Sião:

Pouco ás filhas faltarei;

São feias, e mal criadas;

Mas sempre conseguirei,

Que cantem desatinadas

“De saudades morrerei”:

Cantada a vulgar modinha,

Que é a dominante agora,

Sai a moça da cozinha,

E diante da senhora

Vem desdobrar a banquinha:

Na farpada mesa, logo

Bandeja e bule aparece;

Que mordais os beiços rogo,

Pois são trastes, que parece

Que escaparam de algum fogo:

Em bule chamado inglês,

Que já para pouco serve,

Duas folhas lança, ou Ires

De cansado chá, que ferve,

Com esta, a sétima vez:

De fatias, nem o cheiro.

Por mais que às vezes as quis;

Que o carrancudo tendeiro,

Cansado de gastar giz,

Já não dá pão sem dinheiro:

Sairemos de improviso,

Despedidos à francesa:

E iremos, pois é preciso,

Na vossa esplendida mesa

Largar rédea à fome e ao riso:

De tudo nos lembraremos;

A famosa digressão

Ao bom marquês contaremos,

E do vermelho Monção

Mil saúdes lhe faremos:

Mas, senhor, agora vejo

Quanto o pensamento voa;

Estar convosco desejo;

Não podendo co’a pessoa,

Fui ao menos c’o desejo:

Correu com largueza a mão;

Escrevi mais do que devo;

Foi culpa do coração;

Quando vos falo, ou escrevo,

As horas instantes são:

Quem me seja pouco afeito,

Vendo estas regras singelas,

Dirá com danado peito,

Que escrever-vos bagatelas,

Ê faltar-vos ao respeito;

Mas vós sois sábio, e sois justo;

Sabeis a quem me encostei;

Boileau que escreveu sem susto.

Fez o mesmo ao grande rei.

Fez o mesmo Horácio a Augusto.