SÁTIRA, OFERECIDA A D. MARTINHO DE ALMEIDA, NO ANO DE 1779
A vós, que favor me dais,
Ilustre e sábio Martinho,
Que meu fraco engenho alçais;
E das letras o caminho
Dentro d’elas me mostrais:
Homem são e sem reserva.
Que pondes sangue de parte,
Que vãos respeitos conserva;
Nutrido aos braços de Marte
Com o leite de Minerva:
Vosso servo hoje se atreve
A mandar em má poesia
Bons desejos que ter deve;
Que tenhais paz e alegria.
Mais que o triste, que isto escreve:
Que nessas vastas campinas,
Que assombram ermos outeiros,
Vivais horas mais benignas.
Livre de duros banqueiros.
Livre de ingratas Nerinas:
Em boa tarde mandai;
Farpear bravo novilho.
Com o conde passeai;
Ide adoçando c’o filho
Justas saudades do pai:
Ensinai-lhe altas verdades.
Aos vossos olhos patentes;
Mostrai-lhe nessas herdades
Os prazeres inocentes.
Que fugiram das cidades:
Que ame a pura singeleza,
De que os campos são figura;
Que não se fie em grandeza,
Que uma é obra da ventura,
Ê a outra, da natureza:
Mas voltando a nós a mão,
Vós, filósofo profundo,
Que conversais com Platão,
Vede se lhe achais um mundo,
Que nos encha o coração:
Que este em que estamos, senhor,
Sempre surdo a sãos conselhos,
Volve a roda a seu sabor;
E dizem pilotos velhos,
Que vai de mal a pior;
Quantas vezes nós falíamos
Sobre a sua natureza?
Quantas mazelas lhe achamos?
Porém temos a fraqueza
De amar o que condenamos:
O bom Demócrito ria
Do que a nós nos causa dor;
Ele mui bem o entendia;
Vamos nós também, senhor.
Fazer o que ele fazia:
Dos homens na vã loucura
Um pouco meditaremos;
E com alquimia segura,
Do mal alheio faremos
Para o nosso mal a cura:
Quando vierdes, então
Correremos a cidade;
Uns que vem, e outros que vão;
Acharemos à vontade
Onde metíamos a mão:
Veremos o vão paralta
Calcando importuna lama,
Que as alvas meias lhe esmalta,
Na esteira de esquiva dama,
Que de pedra em pedra salta:
Aos cafés iremos vê-lo
No mostrador encostado
Sobre o curvo cotovelo
Tendo à esquerda sobraçado
Gigante chapéu de pelo:
Ali em regras de dança,
Com outros tais conversando,
Dirá que desde criança
Andou sempre viajando,
Que viu Londres, que viu França;
Que gastou grossos dinheiros;
Pois ver com sossego quis
Cidades, reinos inteiros;
Jura que como em Paris
Nunca achou cabeleireiros:
Exalta os molhos franceses
Dos banquetes que lhe deram;
E balbuciará ás vezes,
Fingindo que lhe esqueceram
Muitos termos portugueses:
Chamará à pátria ingrata;
Murmurará do governo.
Que do bom gosto não trata,
E consente que de inverno
Haja fivelas de prata:
Em dois minutos emenda
O mundo que vai perdido;
E quer que com ele aprenda
Em que quadra, e em que vestido
São próprios punhos de renda:
Carregando a sobrancelha,
A falar na história salta;
E logo da França velha
Reconta o pobre paralta
Cousas que pescou de orelha:
Faz ao bom Suli justiça,
Que os fios da espada embota
Ao rei, que em furor se atiça;
E não lhe esquece a anedota,
“Que um reino vale uma missa”
Falia em São Bartolomeu
E quase que as gotas conta
Do sangue que então correu;
E ao certo as folhas aponta
Da história que nunca leu:
Riremos do seu estudo;
Porque só o tem mostrado
Em ter chapéu gadelhudo
Em ter canhão cerceado,
E em pôr de mais um canudo.
Iremos ouvir mil petas.
Quando mais o sol se empina,
Vendo acérrimos jarretas,
Junto a Santa Catarina,
Argumentando em gazetas:
Um quer a cabeça dar,
Se o conde de Estaing não fez
Trinta naus desarvorar;
Outro levanta em um mês
O cerco de Gibraltar:
Um, riscando a terra, ensina
Co’a bengala a geografia;
E nos diz com quem confina
Ao poente e ao melodia
A Geórgia e a Carolina:
Outro aos ingleses deseja
Na armada o fogo ateado;
E pinta em crua peleja
Dez lordes fugindo a nado
Sobre barris de cerveja:
Outro conta os graves danos
Que esta gazeta declara
Tiveram os castelhanos;
E o triunfo inglês compara
C’os triunfos dos romanos:
Ao seu partido se aferra;
Diz que inda c’os mastos rotos
Ao mundo farão a guerra;
Mas fica vencido em votos,
E leva a breca a Inglaterra:
Dão ao leão furibundo
Gibraltar em justa guerra;
E este concílio profundo,
Sem ter um palmo de terra,
Está repartindo o mundo:
Dado enfim o inglês à sola,
Qualquer dos ditos confrades
Na rota capa se enrola;
E tendo dado cidades,
Nos vem pedir uma esmola:
D’ali, senhor, voltaremos
Pelas praças principais;
Que belas cousas veremos!
Que famosos editais
Pelas esquinas leremos!
“Chegou monsieur de tal,
Químico em Paris formado;
Traz segredo especial;
Um elixir aprovado,
Um remédio universal:
“Não pretende ajuntar fundo
C’os grandes segredos seus;
E cheio de dó profundo,
Tira pelo amor de Deus
Os dentes a lodo o mundo”:
Iremos ler no outro lado,
Onde acaso os olhos pus:
“Em quarto grande, e estampado
Saiu novamente à luz
Carlos Magno comentado”:
“Na mesma loja hão de achar:
As Obras de Caldeirão,
Que em bom preço se hão de dar;
E o Cavalheiro Cristão,
E as Regras de Partejar”.
D’estas ridicularias,
E de outras tais murmurando
Co’as nossas filosofias,
A tarde iremos gastando
Té que deem Ave-Marias:
Então já quando em cardume
Sai gente da Fundição,
Como sabeis que é costume,
E já as vizinhas vão
Pedir ás vizinhas lume:
Quando a dama requestada
Um vulto na esquina vê,
E diz à fiel criada,
Que desça pé ante-pé,
E tome o escrito na escada:
Quando todo o ginja rico
Para casa a proa inclina,
Por temer facas de bico;
E cuida que a cada esquina
Lhe lança mão o Joânico:
Então, meu senhor, teremos
Função de mais alto preço;
A certa assembléia iremos
De uma gente que eu conheço,
Onde à vontade riremos:
Feita a geral cortesia,
Pé atrás, segundo a moda,
Daremos à mãe e à tia,
E depois a toda a roda,
Alto e maio senhoria:
A mãe, já dragão formal,
Espelho de desenganos,
E que, por seu grande mal,
Há já mais de vinte anos,
Que guarda a fé conjugal;
Posta de roda no centro.
Cruza a perna, mestra abelha;
E de longe a ver-lhe eu entro
Sapatos de seda velha.
Bicos de pés para dentro:
A tia, séria mulher,
Que os longos vestidos seus
Ao Carmo manda fazer;
E d’estas que dão a Deus
O que o mundo já não quer;
Sente um desgosto infinito.
Que o mundo a deixe tão cedo;
Afeta místico esp’rito;
Porém suspira em segredo
Pelas cebolas do Egito:
L’abbé, que encurta as batinas,
Por mostrar bordadas meias,
E presidindo em matinas,
Vai depois ás assembléias
Cantar modas co’as meninas;
É quem lhe rouba atenções,
E lhe acende um fogo interno,
Trata-o com mil expressões;
Diz-lhe quanto há de mais terno
Nos seus livros de orações:
Riremos do tal dragão,
Que tantas figuras faz;
E sabe, com hábil mão,
Unir em profunda paz
Babilônia com Sião:
Pouco ás filhas faltarei;
São feias, e mal criadas;
Mas sempre conseguirei,
Que cantem desatinadas
“De saudades morrerei”:
Cantada a vulgar modinha,
Que é a dominante agora,
Sai a moça da cozinha,
E diante da senhora
Vem desdobrar a banquinha:
Na farpada mesa, logo
Bandeja e bule aparece;
Que mordais os beiços rogo,
Pois são trastes, que parece
Que escaparam de algum fogo:
Em bule chamado inglês,
Que já para pouco serve,
Duas folhas lança, ou Ires
De cansado chá, que ferve,
Com esta, a sétima vez:
De fatias, nem o cheiro.
Por mais que às vezes as quis;
Que o carrancudo tendeiro,
Cansado de gastar giz,
Já não dá pão sem dinheiro:
Sairemos de improviso,
Despedidos à francesa:
E iremos, pois é preciso,
Na vossa esplendida mesa
Largar rédea à fome e ao riso:
De tudo nos lembraremos;
A famosa digressão
Ao bom marquês contaremos,
E do vermelho Monção
Mil saúdes lhe faremos:
Mas, senhor, agora vejo
Quanto o pensamento voa;
Estar convosco desejo;
Não podendo co’a pessoa,
Fui ao menos c’o desejo:
Correu com largueza a mão;
Escrevi mais do que devo;
Foi culpa do coração;
Quando vos falo, ou escrevo,
As horas instantes são:
Quem me seja pouco afeito,
Vendo estas regras singelas,
Dirá com danado peito,
Que escrever-vos bagatelas,
Ê faltar-vos ao respeito;
Mas vós sois sábio, e sois justo;
Sabeis a quem me encostei;
Boileau que escreveu sem susto.
Fez o mesmo ao grande rei.
Fez o mesmo Horácio a Augusto.