SATYRIZA O POETA ALLEGORICAMENTE ALGUNS LADRÕES, QUE MAIS SE ASSIGNALAVÃO NA REPUBLICA. ABOMINANDO A VARIEDADE, E O MODO DE PURTAR.

By Gregório de Matos Guerra

Ontem, Nise, a prima noite

vi sobre o vosso telhado

assentados em cabido

cinco, ou seis formosos gatos.

Estava a noite mui clara

fazia um luar galhardo,

e porque tudo vos diga,

estava eu em vós cuidando

O Presidente, ou Deão

na Cumeeira sentado

era um gato macilento

barbirruço, e carichato.

Os demais em boa ordem

pela cumeeira abaixo

lavandeiros de si mesmos

lavavam punhos, e rabos.

Tão profundo era o silêncio,

que não se ouvia um miau,

e o Deão o interrompeu

dando um mio acatarrado.

Tossiu, tossiu, e não pôde

articular um miau,

que de puro penitente

traz sempre o peito cerrado.

Eis que um gatinho reinol

mui estítico, e mui magro

relambido de feições,

e de tono afalsetado:

quis por primeiro falar,

e falara em todo o caso,

se outro gato casquiduro

lhe não saíra aos embargos.

Eu sou gato de um meirinho

(disse) que pelos telhados

vim fugindo a todo o trote

do poder de um saibam-quantos.

Com que venho a concluir,

que servindo a tais dois amos,

hei de falar por primeiro,

porque sou gato dos gatos.

Fale, disse o Presidente,

pois lhe toca pro anciano;

e ele tomando-lhe a vênia,

foi o seu conto contando.

Em casa deste Escrivão

me criei com tal regalo,

que os demais gatos da casa

eram comigo uns bichanos.

Mas cresci, e aborreci,

porque se cumpra o adágio,

que o oficial do mesmo ofício

é inimigo declaraclo.

Foi me tomando tal ódio,

porque foi vendo, e notando,

que era capaz eu de dar-lhe

até no ofício um gataço

Topou me em uns entreforros,

e tirando-me porraços,

eu lhe miava os narizes,

quando ele me enchia os quartos

Fugi, como tenho dito,

e me acolhi ao sagrado

de uma vara de justiça,

que é valhacouto de gatos.

Sai meu amo aos prendimentos,

e eu fico em casa encerrado

por caçador de balcões,

onde jejuo o trespasso.

Porque em casa de um meirinho

nas suas arcas, e armários

é quaresma toda a vida,

e têmporas todo o ano.

Não posso comer ratinhos,

porque cuido, e não me engano

que de meu amo são todos

ou parentes, ou paisanos.

Porque os ratinhos do Douro

são grandíssimos velhacos:

em Portugal são ratinhos,

e cá no Brasil são gatos.

Eu sou gato virtuoso.

que a puro jejum sou magro,

não como, por não ter quê,

não furto, por não ter quando

E como sobra isto hoje,

para me terem por Santo,

venho pedir que me ponham

no Calendário dos gatos.

Acabada esta parlenda

mui ético do espinhaço

sobre a muleta das pernas

se levantou outro gato:

Dizendo: há anos, que sirvo

na casa de um Boticário,

que a récipe de pancadas

me tem os bofes purgado.

Queixa-se, que lhe comi

um boião de unguento branco,

e bebi-lhe a mesma noite

um canjirão de ruibarbo.

Diz bem, porque assim passou;

mas eu fiquei tão passado

como de tal solutivo

dirá qualquer mata-sanos.

Fiquei de humores exangue,

tão escorrido, e exausto,

que não sou gato de humor,

porque nem bom, nem mau gasto.

Suplico ao senhor Cabido,

que de um homem tão malvado

me vingue com ter saúde,

por não gastar os emplastos.

Apenas este acabou,

quando se ergueu outro gato,

e entoando o jube domine

disse humilde, e mesurado:

Meu amo é um bom Alfaiate

gerado sobre um telhado

na maior força do inverno,

alcoviteiro dos gatos.

É pardo rajado em preto,

ou preto embutido em pardo,

malhado, ou já malhadiço

do tempo, em que fora escravo.

Tão caçador das ourelas,

tão meador de retalhos,

que com onças de retrós

brinca qual gato com ratos.

E porque eu com dois fios

joguei o sapateado,

houve de haver por tão pouco

uma de todos os diabos.

Estrugiu-me a puros gritos,

e plantou-me no pedrado;

ele pelo cabo é cão,

e eu fiquei gato por cabo.

Que de verdades dissera,

a estar menos indignado!

mas para falar de um cão

é mui suspeitoso um gato.

Pelo menos quando eu corto,

nunca dobro a tela em quatro,

por dar um colete ao demo,

e outro a mim pelo trabalho.

Nem menos peço dinheiro

para retrós e o não gasto,

porque o gavetão do cisco

me dá o retrós necessário.

Não cirzo côvado, e meio

por dar um colete ao diabo,

nem vendo de tela fina

retalhinhos de três palmos.

Tudo enfim se há de saber

no universal cadafalso,

que no tribunal de Deus

não se estilam secretários

Requeiro a vossas mercês;

que me ponham com outro amo,

porque com este hei de estar

sempre como cão com gato.

À vista deste Alfaiate

disse o Cabido espantado.

somos nós gatos mirins,

que inda agora engatinhamos.

O gato tome outro amo

em qualquer convento honrado.

seja Fundador Barbônio,

ou Sacristão-mor do Carmo.

A propósito do que

se foi erguendo outro gato.

e amortalhado de mãos

armou os lombos em arco:

E dizendo o jube domine

se pôs em terra prostrado:

e eu disse logo: me matem,

se não é dos Franciscanos.

Sou gato de refeitório,

disse, há três ou quatro anos,

pajem do refeitoreiro,

do despenseiro criado.

Fui Custódio da cozinha,

e dei mal conta do cargo,

porque sisando rações,

fui guardião dos traçalhos.

Eu era por outro tempo

mui gordo, e mui anafado,

porque os da esmola então vinham

despejar-me em casa os sacos.

Mas hoje, que já da rua

vêm cos bolsos despejados,

veio a ser o refeitório

uma Tebaida de gatos.

Não pode o pão das esmolas

manter tantos Remendados,

que em lhe manter as amigas

(sendo infinitas) faz arto.

Dei com isto entisicar-me,

e esburgar-me do espinhaço,

não tanto já de faminto,

quanto de escandalizado.

Não posso viver entre homens,

que se remendam seus panos,

é mais por nos enganar,

que porque lhes dure o ano.

E hoje, que na casa nova

gastam tantos mil cruzados,

são gatos de maior dura,

pois de pedra, e cal são gatos.

Palavras não eram ditas,

quando zunindo, e silvando

sentiram pelas orelhas

um chuveiro de bastardos.

E logo atrás disso um tiro

de um bacamarte atacado,

que disparou de um quintal

um malfazejo soldado

Descompôs-se a audiência,

e cada qual por seu cabo

pela campanha dos ares

foram de telha em telhado.

E depois que légua e meia

tinha cada qual andado,

parando, olharam atrás

atônitos e assustados.

E vendo-se desunidos,

confusos, desarranchados,

usaram de contra-senha

miau aqui, ali, miau.

Mas depois, que se juntaram,

disse um gato castelhano,

cada qual a su cabana,

que hoje de boa escapamos,

Chuviscou naquele instante,

e safaram-se de um salto,

porque sempre da água fria

tem medo o gato escaldado.